Crítica | Entre Os Homens de Bem

De Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, antes mesmo de mostrar o conteúdo do longa há um anúncio de que o filme não possui qualquer traço de verba pública ou mesmo de captação semelhante. Entre os Homens de Bem é focado na figura do deputado federal eleito pelo Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, do Estado do Rio de Janeiro, Jean Willys.

Antes mesmo do discurso do biografado, é mostrado um ritual ligado as religiões afro-brasileiras, em meio a alguns discursos de políticos conservadores e de extrema direita, bradando basicamente contra a orientação sexual LGBT, vista em Jean e em alguns outros parlamentares. Em meio a crise política do Brasil em 2018, analisar esse tipo de discurso, que foi gravado na época antes de 2015, 2016, com as falas inflamadas de pastores, de dentro do parlamento e até de fora, uma vez que não aparecem somente Marco Feliciano, mas também Silas Malafaia, em um discurso preconceituoso, prepotente, arrogante e carregado de uma fala que foge demais a ideia de  um estado laico, que se agrava principalmente por essa fala ocorrer dentro da casa da lei.

Os documentaristas usam as filmagens da edição do Big Brother Brasil em que Willys foi o campeão, para mostrar uma escalada de vitorias dele sobre preconceito, embora o fato dele ter sido alvo da panela que tentou eliminar ele precocemente do programa fosse contestável à época. Essa parte como um todo força um pouco a barra, ainda mais quando tenta dar uma legitimidade ao prêmio de vencedor ao professor como se fosse um sinônimo de que o Brasil realmente luta contra preconceitos homofóbicos, até porque pouco tempo depois um dos vencedores do reality show foi um sujeito claramente anti-gay.

O filme e o deputado são bastante didáticos, no sentido de explicar onde exatamente o discurso pró família tradicional está errado e onde ele começa a perseguir as minorias, como se seus direitos fossem maiores que os dos outros. Jean lê uma historia de um medico gay, que ao não conseguir mais reprimir sua sexualidade, se assume e é tratado como endemoniado e possesso pelo diabo. Para quem já está acostumado com esse tipo de discurso, tal situação é extremamente banal, mas para quem não está situado no ambiente alienatório de quem condena a homo afetividade só por condenar ou por supostas leis espirituais, isso é assustador, ainda mais em se tratando do Brasil, que é uma pátria multi cultural e de diversidade religiosa muito difundida.

O culto semanal acontece tradicionalmente dentro do Congresso, no entanto, há uma falácia dentro da conversa, em especial de Marcos Feliciano, de que os homossexuais querem privilégios, quando quem os tem é a bancada evangélica. Também se gasta um tempo discutindo a falácia que boa parte dos leigos, que encara pedofilia com homossexualidade, discussão essa já amplamente discutida entre juntas médicas e refutada cientificamente, mas ainda levantada por parte de alguns fundamentalistas desonestos.

Um dos principais alvos do filme é destacar a visão limitada da relação sexual que muitos dos opositores do biografado tem, normalmente declarando que estas são feitas para e tão somente procriação, o que é obviamente uma mentira, além disso, há a denuncia do discurso que propaga que o PT investe na luta entre classes políticas, de gêneros e afins para justificar seu plano de poder. Essa ultima sentença vem da boca de Jair Bolsonaro, atual presidenciável. Parte da preocupação do deputado reeleito do PSOL, era com a quantidade exorbitante de votos de Bolsonaro, e os minutos finais de Entre Os Homens de Bem, destaca não só a rivalidade entre os dois plenários, mas também o crescimento da popularidade do militar de reserva eleito no Rio de Janeiro. Esse viés de denuncia talvez seja o argumento mais inteligente, apesar de hoje parecer previsível, pois já havia sido feita antes mesmo de se declarar mais categoricamente a chapa presidencial do personagem deplorável que é Bolsonaro.

Cavechini e Barros não tem qualquer receio em parecer ou não parecerem parciais, e todas as bandeiras levantadas por Willys no decorrer dos 104 minutos do longa são justas e igualitárias, e apesar de alguns tropeços do político, ao falar a respeito do cenário da esquerda atual, e de algumas leituras bastante ingênuas na época da eleição – como por exemplo, a reclamação dele a aproximação de Dilma Roussef a Katia Abreu – seus mandatos tem sido preconizados por pautas muito corretas e progressistas, tanto em votação como em proposição de projetos, e o filme registra isso a maestria, misturando bem momentos de imagens inéditas muito intimas com videotapes de sessões da câmara, para muito além até das declarações do deputado que contradizem em algum modo sua militância progressista, do que está no filme, não há qualquer reprimenda ou crítica negativa a postura dele como representante do povo.

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