Crítica | Entreatos

O filme que João Moreira Salles planejou trazer  a luz era para ele, no início do projeto, um mar quase infinito de possibilidades. Uma das idéias que o próprio aventou recentemente, era de que seria um filme sobre as campanhas presidenciais de PT e PSDB, à época, encabeçada na parte tucana por José Serra. Entreatos no entanto amadureceu como as cenas dos bastidores da campanha vencedora de Luiz Inácio da Silva, em uma eleição que por muito pouco, segundo as pesquisas de opinião e intenção de voto, não aconteceu ainda no primeiro turno.

A intimidade do diretor com seu biografado é tamanha que Salles passeia de avião com o então presidenciável, tendo de legendas as falas dele a fim de tornar fácil de entender as conversas de Lula com Antonio Palocci e outros companheiros políticos.

Assistir Entreatos nos dias de hoje tem contornos assustadores, principalmente pela quantidade de pessoas que a época estavam no PT, desde pessoas que se afastaram até de campos progressistas, como Martha Suplicy e Fernando Gabeira; aqueles que permanecem à esquerda mas estão distantes do PT hoje, como Luiza Erundina, Luciana Genro; falecidos, como o saudoso Luiz Gushiken e a ex Primeira-Dama Marisa Letícia; e por fim, aqueles que hoje estão impedidos de exercer cargos por problemas judiciais (para se falar o mínimo), como o já citado Palocci e José Dirceu, sempre mostrado como um homem muito próximo do futuro presidente, assim como Duda Mendonça, que foi o mentor de sua publicidade em campanha, responsável em partes pela postura Lulinha, Paz e Amor.

Walter Carvalho assina a fotografia do longa, que varia muito de qualidade de imagem, uma vez que não é fácil captar cenas de intimidade em meio a uma campanha eleitoral super corrida. A ideia de humanizar o ícone que se formava nos meados de 2002 é muito bem construída, as anedotas que Lula conta são carregadas de carisma, personalidade e graça, mesmo ao falar de passagens que poderiam soar trágicas, há uma carga de comédia embutida típica das falas de pessoas que conseguem ser o centro das atenções onde quer que estejam. Toda vez que a oratória de Lula é posta à prova, ele obtém êxito enorme, uma vez que consegue ser entendido por pessoas de classes econômicas distintas, a despeito até do conhecimento dessas mesmas pessoas, fato que demonstra bem o quão universal é seu discurso e o quanto foi singular a união que aconteceu naquele ano em 2002, união essa que jamais se repetiria tão exitosa quanto aqui.

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