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Crítica | Erased Boy: Uma Verdade Anulada

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Boy Erased: Verdade Anulada é o novo filme de Joel Edgerton, e já causou alguma polêmica no Brasil por ter sua estreia em cinema cancelada perto da data limite. Muito se falou em censura, por ter uma temática LGBT, mas nada se comprovou, e o que se vê já no começo é uma historia emocional, de cunho intimista, que mostra Jared Eamons, em gravações de sua infância, partindo logo para sua fase adolescente, onde é interpretado por Lucas Edges. Seu comportamento aparentemente não é incomum, mas ele guarda um segredo que para os seus, é vergonhoso.

O personagem mora em uma cidade pequena do Arkansas, e tem de lidar com a família e amigos conservadores – seu pai é pastor batista – e ele é levado por sua mãe, Nancy (Nicole Kidman) há uma clínica hospitalar, que logo se mostra um lugar estranho, um internato onde  os pacientes ficam presos, tem tudo fiscalizado, tem proibições de diários e tem sua privacidade invadida e retirada. Incrivelmente, se fala muito sutilmente sobre qual é a função daquela clínica, as pregações religiosas apelam para falas genéricas que desconstroem a ideia de que ali se persegue um nicho da população e um comportamento sexual.

O roteiro brinca com sua linha do tempo. Jared é mostrado conversando com seu pai Marshall (Russel Crowe), que aliás, está muito bem), em alguns pontos jogando basquete no colegial, pelo time do Rebels, e até passando por rituais típicos de jovens que estão prestes a ir para a universidade, começando a namorar meninas e até recebendo um carro de seu pai. Entre esses momentos, também são mostrados os internos, como Jon (Xavier Dolan), um jovem que chega sempre atrasado e que tem um comportamento um tanto rebelde, e o palestrante da clínica Victor Skyes, feito pelo próprio diretor do filme, sujeito esse aparentemente mais paciente e compreensivo com os jovens.

O protagonista é sensível, gosta e artes, de desenhar, tem hobbys comuns como jogar vídeo game, e acaba se envolvendo emocionalmente com outros alunos do tal instituto. Ainda assim, ele frequenta a sua igreja e a de outros, se permitindo assim ouvir a palavra do Divino. Por mais que ele tente mudar seus pensamentos e seus impulsos, ele não consegue, e o filme representa isso muito bem, entre tentativas mais assertivas e outras mais ligadas ao lugar comum, mas o que se percebe é incomodo.

O fato de não se encaixar nas expectativas de seus pais faz o drama de Jared ser mais universal até do que a fala direta para o nicho de pessoas que tem dificuldade em aceitar sua orientação sexual ou serem aceitas. Isso pode não parecer algo importante, mas é, pois é fácil digerir até para quem tem um preconceito “brando” com pessoas de não hetero-normativas, mostrando a elas o sofrimento que alguém comum tem e como é pesado ter que lidar com o preconceito de terceiros, dos próximos e até o preconceito interno que, apesar de não ser algo natural e originário (em termos freudianos), é adquirido há tanto tempo que parece ser assim, parece ter nascido com cada pessoa.

Embora em alguns pontos se apele um pouco na carga dramática, o filme é sóbrio, não é afetado, ou demasiadamente panfletário, mesmo que o tema de “cura  gay” pedisse isso. A maior parte do cunho emotivo provém das interpretações, Crowe, Kidman, Edgerton e os atores mais jovens estão muito afiados, e a entrega de Hedges é enorme também. Se percebe o quão aflito e desesperado é o seu Jared, e não é difícil se afeiçoar ou por qualquer um dos que são tratados, e qualquer clichê ou fala de ordem como “não há cura para o que não é doença” não é tão forte quanto a expressão de medo e receio que ele tem ao ver o tratamento de um dos internados que se deixou falhar na repressão sexual, ou nas reprimendas que faz a si por ainda ter sentimentos e pulsões por outros homens.

Se falta poesia no filme, sobra condenação aos que tentam impor suas verdades, embora o dedo acusatório não seja obvio. O roteiro de Edgerton é delicado até nisso, permitindo que as partes mais comoventes sejam ternas e sem falas, ensurdecendo publico e personagens durante as sessões de tortura, para aplacar a dor e a miséria dos que são julgados e consertados. É um filme forte, com um caráter educativo inclusive para plateias mais novas, como uma versão moderna e mais econômica melodramaticamente falando de Diário de Um Adolescente.

O filme no final mostra os homens reais que inspiraram os personagens, e é um dos poucos momentos em que ele se permite ser otimista, já que boa parte deles está bem, aceitos por suas famílias, constituindo suas próprias. O final de Erased Boy não é tão sutil e econômico quanto o restante do filme, mas não há nada nele que denigra todo o resto, ou diminua sua força de denúncia, esse funciona perfeitamente como o antônimo de Eu Sou Michael, filme que fala sobre um tema parecido cuja abordagem é estranha e até homofóbica, mas seu mérito maior certamente é o fato dele ser palatável e de fácil compreensão mesmo para a parcela do público mais conservadora, ao menos a que é aberta ao diálogo civilizado.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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