Crítica | Estação do Diabo

Conhecido por ter um cinema bastante emocional, e que infelizmente não chega aos cinemas brasileiros na maioria das vezes , Lav Diaz prossegue trazendo um olhar clinico sobre as mazelas que ocorrem em sua terra, as Filipinas. Estação do Diabo entra no circuito tupiniquim e se passa em 1979 e tem como base o complexo cenário politico da época, que se agravou e muito pela situação da Guerra Fria, uma vez que o país tinha um comando socialista, que armou boa parte da população civil a fim de tomar o poder e era repleta de conflitos em sua própria terra.

As milicias armadas costumam abater os rebeldes, usando eles como exemplos, deixando seus cadáveres na rua para dar exemplo, em uma fria demonstração de crueldade. O quadro estabelecido nesse conto se torna ainda mais aterrador por serem pessoas comuna cometendo isso, as ordens presidenciais para a criação da CHDF (uma organização das milicias com apoio do poder governamental) são polemicas por conta da transformação das pessoas provindas do chão de barro em assassinos num curto espaço de tempo.

A reflexão que Diaz propõe passa entre outras coisas pela questão de o treinamento intensivo pelo qual passava o povo era insuficiente no sentido humanitário de ações armadas, uma vez que o proletário matava o proletário sem muito pensar, fato que talvez tenha ajudado em um futuro próximo na tomada de poder de forças da extrema direita fascista, que encontra ecos ate hoje na sociedade filipina. Mesmo que leve em conta essa atmosfera de caos e calamidade geral, o registro do filme é muito mais preocupado em tratar de vidas singulares e de gente comum do que os meandros do poder e os motivos e maquinações politicas, e uma das visões atribuídas a filmografia de Diaz é a que quando um governo extremo se estabelece, a tendência é de esmagar o povo, especialmente o mais pobre.

O formato do filme é curioso, ha um uso continuo de cantoria por parte dos personagens, mas essa exploração é bem diferente dos musicais estilo Broadway e Hollywood. A maioria é A capella, e mostram momentos de angustia (dos vitimados pelas milicias) e de descontração (dos armados), e ambos comportamentos remetem a uma tentativa de fuga, em sequencias normalmente tolas que visam alienar os personagens a situação quase apocalíptica presente naquela temporalidade, embora hajam momentos que a policia louva a si e a seus feitos.

O povo é massacrado, e mesmo diante das muitas atrocidades mostradas em tela, o estado mental comum a essas pessoas parece ser o da insanidade. As violências e agressões sofridas são retribuídas com mais canções de ritmo alegre e letras otimistas, gerando um contraste absurdo. Lav Diaz mira um nível emocional alto em sua obra, e a dedicação que ele tem enquanto contador de historias visando homenagear as vítimas das leis marciais é soberba. Poucos cineastas conseguem reproduzir tão bem a angustia das classes menos favorecidas como o cineasta filipino, e como de praxe, seu exercício de linguagem resulta em uma arte forte, certeira e sentimental, sem deixar cair sobre qualquer pieguice ou emoção barata.

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