Crítica | Estrelas Além do Tempo

Existe uma propriedade que é muito interessante sobre todas as artes, traçando aqui um paralelo com a matemática e com as ciências, é que tem coisas que só uma ou duas pessoas no mundo são capazes de fazer. Simples assim. É questão de que as vezes só existe uma pessoa mesmo para realizar aquela obra. Porém se essas pessoas forem impedidas de realizar suas obras, o mundo como um todo se ficará mais pobre, e este é o caso de diversas mulheres e pessoas negras ao longo da história, que infelizmente foram sistematicamente apagadas e impedidas de nossa devida admiração.

George Boole desenvolveu a álgebra booleana, uma álgebra utilizada para que computadores tomem decisões com um insight vindo de jogos que permeavam a cultura de diversos povos, em diversos países africanos, baseados em bits, tal qual o jogo de Búzios.

Nos anos de alfabetização matemática meninas têm um desempenho superior ao dos meninos. Em país menos desiguais, é comum mulheres serem melhores em matemática, porém têm mais dificuldade de se afirmarem como inteligentes do que meninos. Apesar disso supõem-se que meninas não sejam tão boas em ciência e matemática. Apesar de o primeiro Computador, ENIAC, ter sido programado por um grupo de 80 mulheres, que em pouco ou nada foram reconhecidas. A atriz e inventora Hedy Lamarr foi responsável por inventar um sistema de comunicações para as Forças Armadas Americana, e que hoje chamamos basicamente de Wi-fi.

Sendo assim, é notável que se possa observar a história de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), um trio de mulheres afro-americanas, e o grupo de matemáticas calculistas do qual faziam parte no programa espacial da NASA, e que foram obrigadas a batalhar mais do que quaisquer outras pessoas na Agência Espacial para simplesmente terem a chance de se mostrarem capazes. Em determinado momento, ao se demonstrar descontente por ter sido interditada para o programa de engenheiros da NASA, que tão pouco aceitava mulheres, por conta de uma regra recente que exigia curso de pós graduação na Universidade da Virgínia, uma universidade que só aceitava brancos, ouve-se da supervisora interpretada por Kirsten Dunst, “Não posso abrir uma exceção para você, aqui ninguém tem privilégios”. A fala, tão comum na internet ganha aqui o lustro hollywoodiano e sua dramaticidade, o que pode afetar mais do que a realidade tão crua do dia a dia.

O filme, porém, conta com uma estrutura bastante convencional, apoiando-se no fato de que só alguém sem coração se indisporia a torcer pela vitórias do trio, o filme estabelece que elas já estavam prontas, e pouco de suas personagens é desenvolvida, com exceção da personagem de Spencer, que passa por um arco de superação onde é obrigada a jogar com o sistema, tornando-se necessária e desenvolvendo um bonito conceito de sororidade. Tudo isso a partir de sua raiva e frustração acumuladas. As demais personagens têm momentos puntuais de discurso e desenvolvimento apenas, discursos esses que emocionam verdadeiramente, mas que acabam ficando dispersos por serem discursos usados como ferramenta para desenvolver outros personagens, em específico os personagens brancos e seus arcos de superação do racismo e machismos de suas estruturas pessoais e organizacionais. O que se vê é uma relação dissonante que gera uma dúvida problemática sobre o que estamos vendo, se é um símbolo de que o grau máximo de superação das pessoas de cor era a aprovação dos superiores brancos (Retratados aqui pelo figurino como variações de uma mesma coisa, com todos vestidos praticamente iguais, em oposição ao colorido das roupas das chamadas mulheres de cor), ou se esses superiores brancos na verdade encontraram em si pessoas melhores por conta do exemplo a que foram, pela primeira vez, expostos.

Apesar da história ser imediatamente empática, o diretor Theodore Melfi faz uso de cenas um tanto mais melodramáticas, especialmente as que ocorrem no delivery de provocações de Katherine Johnson com o chefe de operações, interpretado de forma solene e caipira por Kevin Costner, que apesar de displicente com o bem estar das pessoas que o cerca, se mostra sempre justo e generoso, tomando atitudes bonitas e emblemáticas para tentar apagar as marcas que as estruturas “não preparadas para mulheres e pessoas de cor” faziam sobre a NASA. Porém a repetição dessas cenas faz com que percam sua força no resultado final. A trilha sonora composta pela parceria Hans Zimmer e Pharrell Williams não cumpre o que promete, sendo esquecida tão logo acendem-se as luzes.

E assim é Estrelas Além do Tempo. Um filme necessário, porém burocrático e sem criatividade, sendo uma peça tecnicamente inferior entre seus concorrentes ao Oscar deste ano, que seguem a sombra do brilhante e grande merecedor Moonlight: Sob a Luz do Luar, mas que conta com um elenco bastante competente para mostrar ao mundo o por quê se vê tão poucas mulheres geniais, e tão poucas mulheres negras geniais em nossa memória: Por que elas foram sistematicamente escondidas em porões, tiveram suas contribuições apagadas por protocolos constrangedoramente preconceituosos, obrigadas tomar café e água em jarras que ninguém queria tocar, e por que foram obrigadas a ocultar sua inteligência para evitar serem assim atacadas.

Texto de autoria de Marcos Paulo Oliveira.

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