Crítica | Excelentíssimos

Narrado pelo próprio diretor Douglas Duarte, Excelentíssimos é mais um dos filmes que tenta documentar o processo de golpe/impeachment de Dilma Rousseff. Apesar de esse ser um assunto de interesse nacional é também um projeto muito pessoal do cineasta. Para traçar seu panorama, ele busca voltar a 2014, eleição que fez Dilma se reeleger pelo Partido dos Trabalhadores, no quarto mandato do partido e esse resgata se dá por conta do cineasta achar que ter autorização para filmar o congresso em 2016 é pouco para ter uma visão realmente crítica sobre todo o processo.

Depois dos preâmbulos, o filme foca nos olhos de Dilma, Aecio Neves e até de Michel Temer, em material de campanha, quando o quadro ainda não parecia tão calamitoso. Aecio cumpriria todo o script de bom perdedor, embora tenha mudado de ideia muito rapidamente, abrindo mão dessa postura de aceitar a derrota ou só despistando para sua real intenção de tomar o poder, mesmo que a força. Duarte gasta um tempo mostrando um congresso do PSDB, encabeçado por Fernando Henrique Cardoso, que deliberadamente dá voz ao senador de São Paulo Aloysio Nunes, afirmando que o que ele falar, virará manchete de jornais e revistas (e ele está certo). Nunes, que foi candidato a vice em 2014 afirma duas coisas importantes, que não há como governar sem o PMDB (atual MDB) e que o impeachment é como uma bomba atômica, é feita para dissuadir, e não para ser jogada, e eles (FHC e cia) jogaram assim mesmo.

O registro de Excelentíssimos é bem inteligente, e compreende uma investigação minuciosa da oposição, fato totalmente necessário para entender o quadro político pintado ali. Aécio declarava em “campanha” em 2015 – apelidada por muitos de terceiro turno – que o PSDB era o futuro. Isso, em 2018  após o fracasso tucano no legislativo e executivo soa engraçado, e nas frases do ex-senador há o termo “lambança” ao se referir ao PT, que curiosamente casa, no filme e no noticiário político, com a verba de 45 mil reais pagos a Janaína Paschoal, a mesma que abriu o processo de impeachment e que foi eleita a deputada estadual mais votada da historia.

O filme é dividido em capítulos, e o segundo é chamado de Aliança Desfeita, se refere ao rompimento de PT e PMDB e é aqui que é mostrada a aliança improvável de forças como Eduardo Cunha, Movimento Brasil Livre o MBL, os tucanos e a Fiesp. Também se explicita um caráter rachado no PMDB, com Cunha aparentemente de um lado (embora isso seja muito discutível) e Temer e PSDB de outro. A exposição do comercial do PMDB, de aproximadamente 10 minutos e conduzido por Fernanda Hamalek deflagra o desejo deles de assumir o comando do país a qualquer custo. Não era período de eleições, no entanto Cunha, Renan Calheiros, Helder Barbalho, Romero Jucá protagonizavam a peça como se fossem celebridades. A escolha da montagem por colocar Paulo Skaf, da Fiesp logo após esses momento não é à toa, uma vez que ele foi candidato do MDB ao governo de São Paulo e por pouco não foi ao segundo turno.

Na parte 3, fala-se bastante do impedimento de Luiz Inácio Lula da Silva de subir ao posto de  ministro da Casa Civil. Apesar do documentário ter um volume de informações considerável, a maior parte desses dados são mostrados de uma forma correta, a mostra do planejamento do PT em trazer Lula para tentar negociar a permanência de Dilma no poder é feita em contraponto ao esforço midiático do juiz Sergio Moro em desmoralizar a figura do politico também agindo como um político. É bastante detalhada a operação feita pelos mandatários da Lava Jato, a descrição da Medida Coercitiva e o espetáculo pirotécnico envolvido.. Mas o filme não é complacente com o Partido dos Trabalhadores, e põe a interrogação do porque o partido ainda acredita em ações jurídicas e porque ainda insiste em usar essa estratégia, mesmo sabendo que o jogo é viciado.

Excelentíssimos julga o próximo ministro da Justiça Moro, mostrando que ele tinha uma pressa política e que os grande meios da imprensa o ajudaram nisso, tentando transformar a subida ao ministério como uma movimentação de fuga da alçada da Lava Jato, e a maioria dos argumentos desses opositores se baseavam em áudios vazados ilegalmente, com pedidos de esfihas, piadas em graça, falas com amigos, e que para esses, vale até que possíveis provas cabais.

Há um personagem deplorável que Duarte acompanha, , o deputado Julio Lopes do PP do Rio de Janeiro, que  fala barbaridades e destila preconceito, mas em uma coisa Lopes está correto, o PT só queria atrasar o processo de decisão ou não pela saída de Dilma, mas isso não ocorria pela inércia do partido e sim pelo jogo de cartas marcadas, como já foi muito bem discutido em O Processo.

A voz que o cineasta dá a oposição e não só ao PT e aliados é um diferencial que faz desse documentário um bom retrato do que foi toda a movimentação política. Do lado petista, o deputado Silvio Costa se destaca como articulador governista, incrédulo de que aquilo prosperará, denunciando que aquele movimento cheirava a elite paulistana ingrata e dizia que a  guerra de verdade era no plenário. Apesar dos seus prospectos estarem errados, seu julgamento foi correto. Enquanto isso, quando Miguel Reale e Janaina prestam depoimentos, falam brevemente sobre as pedaladas e muito sobre corrupção, crimes dos quais Dilma não participou e sim os que capitaneiam a comissão de investigação. Para o leitor menos atento pode parecer que o filme é tendencioso, mas essa parte em especifico não é, realmente os juristas falaram muito mais de corrupção do que o motivos das pedaladas mesmo.

Lembro que ao assistir Eduardo Cunha falando na câmara, havia um cinismo absurdo, típico de quem jamais temeu qualquer ação da justiça e Douglas Duarte também traz esse aspecto ao centro das discussões.  Mesmo achincalhado no plenário, o até então presidente da câmara permanece frio diante das falas e insultos contra si,  na maior parte desses momentos critico e criticado estão no mesmo enquadramento. Ri e conversa como se não houvesse nada ali. Ao mesmo tempo o filme destaca a tentativa de reaproximação de Dilma dos movimentos populares, ainda que tardiamente, e também a julga, mostrando que demorou-se muito para o PT retomar as bases, erro esse que também se mostrou existente nas eleições de 2018.

Na escolha por julgar alguns personagens, o longa beatifica a figura de José Eduardo Cardozo, em uma tomada de uma nitidez absurda,  com um close que quase invade a alma do advogado de defesa, assim como trata o deputado Carlos Naum como um mentiroso debochado com o povo, uma vez que quando ele se refere a Cunha ele alega que não é responsabilidade da câmara julga-lo já que o povo pode fazer isso, e com Dilma a mesma regra não vale.

Ainda há espaço para analisar Jair Bolsonaro que se declarava pré candidato em 2016. A câmera foca um bom tempo na estranha figura quando ele  ainda era do PSC (o futuro presidente ainda trocaria de partido duas vezes antes do pleito) e o que se vê é um discurso demagógico, bufão, debochado, raso e sectário, prega uma união onde uns são mais iguais que os outros, apelando para chavões como ser contra o coitadismo. Aqui já havia o slogan Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos. Também é mostrado Onyx Lorenzoni, em uma reunião do PSDB e o registro dos bastidores mostra o baixo clero agindo, normalmente evocando mentiras, como um suposto projeto de lei que permite operação de troca de sexo para crianças.

No final de Excelentissimos, Duarte narra os rumos de cada um dos envolvidos no impeachment, destaca falas de Dilma, de que a democracia será sempre o lado certo da historia, alem da de Temer, que repete irritantemente a frase que o marcou como presidente, não fale em crise, trabalhe. A governabilidade do PT tão criticada pela oposição é também usada por Michel e o documentário flagra o silêncio ensurdecedor de todos, inclusive relacionando o caso de Geddel Vieira (onde foram encontrado mais de 50 milhões em casa) e a falta de protestos relacionados a isso é impressionante, mas Duarte não é ingênuo, denuncia também os erros estratégicos do partido que governou o país nos últimos anos, mesmo que ponha em contraponto as injustiças cometidas contra o governo do partido, e é nesse ponto que seu filme se torna ainda mais poderoso, por não julgar que há inocentes puros e simples em todo esse processo.

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