Crítica | Faca No Coração

No começo do filme de Yann Gonzalez, se misturam cenas de vídeos íntimos e um caráter clubber, com homens dançando em uma boate onde o azul e o preto predominam. Uma figura andrógena aparece no centro das articulações. Logo essa perspectiva é pervertida, e o garoto em questão aparece transando com outra pessoa, mascarada, e esse sujeito incógnito o mata, fazendo de todo esse começo apenas um mcguffin, como Alfred Hitchcock adorava fazer. Faca no Coração é um filme multi temática, mas sua linha guia talvez seja melhor definida dessa forma, como um exercício de quebra de expectativas.

A trama realmente acontece através de Anne, uma produtora de filmes pornográficos, vivida por Vanessa Paradis que procura novas possibilidades de filmagens, uma vez que o simples entra e sai das produções que registram sexo para si, não são suficiente. Apesar da própria não gostar de admitir essa nova busca que faz tem um intento, que é retomar a atenção de sua amada, Lois (Kate Moran).

A genialidade do filme de Gonzalez é por não se saber exatamente em qual patamar cada cena está, se é parte da imaginação louca de Anne, se é uma fantasia, ou se os assassinatos inusitados protagonizados por falos como armas são de fatos reis, assim como os interrogatórios, os telefonemas filmados e os boquetes. Apesar de em boa parte desses pontos mostrarem de fato as câmeras, em outros tantos fica a dúvida sobre a real intenção daqueles momentos.

Fato é que, entre o fracasso de Anne em tentar resgatar os bons momentos de sua relação, e entre a execução do tal filme sob novas mãos – agora a responsabilidade é de Achibald (Nicolas Maury) – um assassinato realmente está rondando todos os que tem ligação com a produção ou elenco dessa nova empreitada e o motivo do acerto de contas é desconhecido, ou parece simplesmente não existir.

Há muitos filmes dentro de Faca no Coração, no sentido literal e no dramático, pois em determinado ponto a trama deixa de lado todo o drama de Anne, para se tornar uma historia de vingança, da comunidade LGBT contra o seu flagelador, o slasher queer, e o fato de no roteiro de Gonzalez e Cristiano Mangione ter esse caráter de estarem filmando cinema o tempo todo faz até esses momentos mais sérios soarem como mais uma das encenações em estúdio comandadas pela protagonista ou por Archibaldi. Os pequenos segmentos que são explorados dentro dos 98 minutos variam entre o pragmatismo e o surrealismo, e a maioria deles é extremamente inspirada e sarcástica.

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