Crítica | Face a Face

Muitas vezes estigmatizado pelo sofrimento apresentado em cada uma de suas peças – as ideias do cineasta e dramaturgo sueco Ingmar Bergman chegam a seus limites de intensidade e crítica.

O cinema de Ingmar Bergman, especialmente os lançamentos posteriores a Persona (1966), é muitas vezes reconhecido pelo pessimismo e por cravar raízes no estudo da psique humana. Em Face a Face, o autor não aborda apenas sua obsessão pela devastação psicológica e o despropósito existencial, como também apresenta outros temas recorrentes em sua obra: a importância da família e a iminência da morte. Mesmo com suas distinções, é um filme onde todas as ideias apresentadas pelo cineasta ao longo de sua extensa filmografia estão potencializadas.

Logo após Cenas de um Casamento, Bergman mais uma vez reúne Liv Ullmann e Erland Josephson para contracenarem juntos. Ullmann é Jenni, uma psiquiatra que tem sua carreira em ordem e a vida pessoal prestes a um total colapso. Usa seu ofício para ajudar outras pessoas, se importa genuinamente com seus pacientes – sobre todas, Maria – que necessita de cuidados especiais. Em tratamento com outro médico, Jenni também sofre de arrebatadora depressão e se sente isolada pelo marido e insegura em sua relação com a filha. Com a casa em reformas e o marido em viagem, ela parte para morar temporariamente com os avós quando em completo desgosto consigo mesma, tenta suicídio.

O longa é uma obra que não confronta sua protagonista com outros personagens ou situações, mesmo que se trate de Tomas, outro psiquiatra interpretado por Josephson. Como o título da obra sugere, esse confronto acontece na intimidade da protagonista e entre seus próprios sentimentos. Assim, Jenni enxerga sua vida deterioração a medida em que não encontra mais satisfação em nenhuma oportunidade.

O autor se vale de alguns recursos para representar isso em cena. O primeiro deles é a cenografia: sempre opressora com o expectador e pronta para também sufocar quem está exposto ao filme. No momento em que Jenni volta à sua casa abandonada e encontra dois homens que tentam abusar da psiquiatra (eles estão em companhia de Maria – em crise), fica claro o estado de espírito devastado em que a doutora se encontra, por suas ações tomadas (mesmo após a tentativa de agressão ela prontamente vai socorrer sua paciente) e o ameaçador vazio representado em tela. Sonhos e fantasias que também são constantes em outros filmes do autor (Morangos Silvestres, Persona, Fanny & Alexander) – representam o inconsciente da psiquiatra a partir de quando tenta a própria morte, eles escancaram seu passado, suas frustrações e seus desejos em uma manifestação ensaística.

Existe uma preocupação por parte de Sven Nykvist, diretor de fotografia e colaborador habitual de Bergman em preencher a tela com sombras – a ponto de muitas vezes lembrar a técnica chiaroscuro. Acontece com o cenário e com a face dos personagens, em alguns momentos, especialmente os de maior angústia, os olhos de Ullmann estão totalmente cobertos pela escuridão.

Bergman, alternando sonho e lucidez, conduz todo sufoco e teatro subjetivo como uma ópera – tendo como finalidade a vertigem e reconhecimento com a decadência apresentada. Enquanto Jenni mergulha em sua essência subconsciente, mais o diretor coloca o dedo na ferida para questionar as escolhas pessoais e profissionais que fazemos em vida. Acontece uma espécie de compensação quando ela atravessa todo esse sofrimento e decide encarar um recomeço: a doutora encontra a sua filha, Anna, que se sente insegura quanto ao estado mental da mãe. É mais uma vez a incerteza assombrando qualquer otimismo possível para o futuro, e assim Face a Face abandona o expectador: a mercê do lado sombrio presente em cada alma viva.

Texto de Gabriel Caetano.

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