Crítica | Feliz Natal (Joyeux Noel)

De Christian Carion, Feliz Natal – ou do original Joyeux Noel – é um drama francês, que romantiza um fato ocorrido no período de 1914, em meio a Primeira Grande Guerra que ocorria pelo interior dos países europeus. O filme começa em um núcleo escocês, onde cidadãos comuns discutem sobre como suas vidas melhorarão com o início do conflito, uma vez que terão salários e perspectivas de ganhar dinheiro. Um deles, sacerdote Palmer (Gary Lewis), vê com maus olhos, e pouco a pouco a atmosfera do medo toma a todos.

O filme apresenta outros núcleos, lembrando o esforço que Clint Eastwood fez ao executar filmes como Cartas Para Iwo Jima e A Conquista da Honra, com a diferença básica que esse é apenas um filme, e foi exibido um ano antes dos dois que Clint conduziu. Da parte dos alemães, há um temor pela terrível sina das trincheiras, o receio de se contrair as doenças típicas desse tipo de atolamento, e claro, o medo inevitável da morte.

Um pouco menos da metade do tempo decorrido, um dos alistados, Nikolaus Sprink (Benno Fürmann), que em sua função civil é cantor de ópera, começa a entoar hinos de natal, relembrando do valor que aquela época tinha, ainda mais em plenos anos 1910. Os comandantes de alta patente, em especial o tenente Hostmayer (Daniel  Brühl) acham que eles serão alvos fáceis para seus inimigos, mas ele percebe estar errado quando outros soldados começam a tocar a gaita de foles, se estabelecendo ali uma conexão. Aos poucos, se estabelece um armistício informal, um acordo não verbal costurado entre os entrincheirados. Nesse ponto, Anna Sörensen (Diane Kruger) tem um bom papel, como ponte entre os dois lados.

Os fogos soltos, à revelia da autoridade são apenas alguns dos sinais sintomáticos de que para o homem comum, a guerra não faz o menor sentido. O irônico é que o filme não se mune de qualquer grau de violência explícita, a guerra não é mostrada em níveis de realidade como O Resgate do Soldado Ryan, esse é um produto anti-guerra, e a emoção que ele passa é tão somente movida pelas sensações terríveis pelas quais os fardados e civis sofrem. A única apelação possível aqui é a humanidade do espectador.

O murmúrio dos que foram obrigados a se manter no campo de batalha não é de tristeza, e sim de louvor à paz. O ritmo desses sons é em direção ao anseio por conseguir viver as suas vidas – ou o que resta delas – em paz, no conforto do lar e no seio familiar. Qualquer outra mensagem natalina não pode ser mais forte do que essa, visto que solidariedade via doação de presentes e consumismo não supera evidentemente a garantia de que se viverá por mais tempo, e nesse ponto, Feliz Natal é muito reverencial as vidas das pessoas que travaram essa batalha.

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