Crítica | Ferrugem e Osso

ferrugem e osso - poster

De repente, Alain (Matthias Schoenaerts) se vê obrigado a tomar conta sozinho do filho de 5 anos. Muda-se da Bélgica para a França, e vai morar em Antibes, onde a irmã e o cunhado os acolhem. Consegue emprego como segurança em uma boate e, ao apartar uma briga, conhece Stephanie (Marion Cotillard), uma treinadora de orcas no Marineland. O relacionamento entre os dois se delineia mais intensamente após Stephanie sofrer um acidente que causa a amputação de suas pernas.

Dirigido por Jacques Audiard, o roteiro é baseado em dois contos do livro Rust and Bone, do autor canadense Craig Davidson. Suas estórias se passam num universo sujo, bruto, hostil, recheado por personagens com vícios variados – lutas, sexo, apostas, entre outros.

Mantidas as devidas proporções, pode-se dizer que Ferrugem e Osso se assemelha a Intocáveis, pendendo mais ao drama enquanto este último tende mais à comédia. O modo como Alain age com Stephanie, sua atitude face à condição dela é similar à de Driss em relação a Philippe. Tanto um como outro não fazem concessões, não há compaixão exagerada. Não “aliviam a barra” só porque o outro tem um problema físico. Em certos momentos, Alain é rude e grosseiro demais, mas é sua natureza e ele não faz a menor questão de mudar isso. Felizmente, o filme não degringola para o dramalhão, não há cena alguma com um momento “ah, coitadinha, ela perdeu as pernas”. Esse é um dos aspectos responsável por “pegar” o espectador de jeito.
Outro, é a diferença gritante – aparentemente – entre a vida dos dois. O espectador, que certamente viu o cartaz do filme e sabe que os personagens têm um relacionamento, fica se perguntando no início: “Como duas pessoas tão diferentes acabam se relacionando?”. Ele é pobre, mora de favor. Ela está num bom emprego, e tem uma beleza inegavelmente elegante. E, apesar de parecerem um casal improvável ao primeiro olhar, à medida que a trama se desenvolve percebe-se que há muito mais semelhanças entre eles do que o espectador pressupunha a princípio. Ambos estão, cada um a seu modo, presos a uma condição incômoda – sendo minimamente realista. Stephanie confinada à sua cadeira de rodas, Alain confinado à sua condição econômica e familiar. Tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais.

E o que seduz é essa audácia do diretor ao trabalhar livremente esses aspectos. Não há tentativa de esconder as amputações de Stephanie. Na praia, Alain a carrega até o mar, com os cotos bem à vista dos outros banhistas, que observam como se fosse algo surreal. E também não há tentativa de esconder o lado “troglodita” de Alain – sua rispidez, beirando a grosseria, ao conversar sobre sexo e relacionamento com ela. Seu jeito “garanhão pegador” é aquele e pronto. Mas há nessas cenas, assim como em outras, a insinuação de que não é apenas aquilo. E Audiard conduz o espectador através das entrelinhas e consegue fazê-lo ver além.

Os personagens secundários também são bastante interessantes, mesmo tendo tão pouco tempo em cena. O instalador de equipamento de vigilância que oferece um “bico” a Alain, mas que também é agenciador de apostas em lutas clandestinas. A irmã de Alain, Anna, uma caixa de supermercado que complementa a alimentação da família trazendo para casa produtos com validade vencida. Estórias que se entrecruzam com a dos personagens principais, complementando-as na medida certa.

Marion Cotillard, em mais uma performance inesquecível, dá a Stephanie a fragilidade e a força necessárias a cada momento. Schoenaerts encarna com bastante desenvoltura o brutamontes com força demais e raciocínio de menos. E a interação entre os dois funciona bem demais. Tão bem que suas interpretações convencem totalmente o espectador de que aquele casal é uma realidade possível.

Enfim, um filme de superação que, felizmente, deixa a pieguice de lado e consegue ser tocante sem ser apelativo e sem tentar fazer o público chorar a cada dez minutos.

Texto de autoria de Cristine Tellier.