Cinema

[Crítica] Filme de Aborto

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Longa-metragem dirigido por Lincoln Péricles, Filme de Aborto é produzido, filmado e rodado na comunidade paulista do Capão Redondo, cuja linguagem narrativa mistura o hermético fantasioso com elementos reais, quase documentais. O experimentalismo do produto começa com uma narração institucional, sobre o tema polêmico do aborto e o texto lido acontece em off, com alguns minutos de tela preta, que tem o intuito de inserir o público na proposta.

Em alguns momentos o áudio propagado simplesmente não casa com a imagem, no intuito de estabelecer uma confusão em quem não está acostumado com o formato escolhido por Péricles e equipe. O problema maior é que essa forma supera e muito o conteúdo da discussão, uma vez que não há nem muita reflexão sobre o próprio título do filme ou espaço para que o público consiga tirar suas conclusões. Falta base e estímulo para provocar qualquer polêmica que seja.

O distanciamento da imagem impede que haja uma maior empatia pelos pseudo-dramas mostrados, mesmo nas partes viajandonas, que invertem o hospedeiro de gravidez, não sendo portanto um dever feminino e sim uma função masculina dentro dessa realidade própria do scritpt. A utilização de uma não trilha consegue estabelecer um suspense no espectador, sendo esse certamente um dos pontos positivos da proposta, uma vez que a maior parte das emoções evocadas fora essa, simplesmente tende a não funcionar em questões mais universais, uma vez que este tema parece voltado para um nicho demasiado específico.

Ao final, há um depoimento bastante interessante, de uma mulher que deflagra alguns detalhes de sua rotina de trabalho, revelando algo óbvio para os moradores de comunidades carentes e favelas brasileiras, mas que talvez não esteja no pensamento de pessoas fora desse meio, relembrando o quanto o ambiente corporativo é humilhante e degradante em especial quando a classe em questão é a da faixa econômica mais baixa. Um simples relato sobre o cotidiano de uma ex-secratária de dentista e que atualmente trabalha em telemarketing é mais sincero e visceral que o filme inteiro, em especial quando esta revela a total falta de perspectiva de melhora. Por esse motivo é que Filme de Aborto melhora um pouco suas perspectivas, mostrando que sua intenção não é a de mudar nada e sim dialogar com as diversas realidades dentro do Brasil cosmopolita atual.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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