Crítica | Fôlego

Fôlego, do diretor Renato Sircilli foi um dos longas que correram os festivais de cinema nacional entre eles a 10ª Semana de Cinema. Sua estrutura narrativa mistura elementos entre a ficção e documentário, e seu começo envolve um dos personagens mexendo no computador, onde Nato acessa alguns programas.

Esse início, quase como um epílogo, guarda semelhanças espirituais com outro filme brasileiro dos últimos anos, o documentário A Vida Privada dos Hipopótamos, mas não demora a mudar seu caráter, mostrando seu elenco inclusive com rostos famosos. A conversa, por texto e áudio em alguns pontos, é entrecortada pelas interferências dramáticas, normalmente com vídeos de baixa resolução e tela pequena e em outras com qualidade maior preenchendo toda tela.

A questão de misturar elementos de ficção com documentário talvez confunda o espectador. Aparentemente, os personagens em tela não são pessoas reais, ao menos não ipsis literis, embora não se descarte a possibilidade de algumas situações terem realmente ocorrido, o fato é que o filme Fôlego existe dentro da narrativa metalinguística estabelecida, assim como quem assume o computador no começo é Nato, abreviação obviamente do nome do diretor, e mesmo o modo como o longa é fotografado lembra muito um estilo de documentário, como já foi utilizado até em filmes mais hypados, a exemplo de Tropa de Elite e Cidade de Deus, embora a linguagem de filme dentro do filme não impere nesses dois.

Bruno Monteiro, o rapaz com que Nato conversa se vê interagindo com Luciana Paes, que faz uma caixa de mercado que se interessa pelo trabalho teatral dele, e sua rotina envolve coisas simples cotidianas, como o registro de suas atividades físicas para expor nas redes sociais, seus almoços, idas às compras e até mesmo sexo grupal, ainda que esse último não se saiba se era algo natural ou proposto dentro do roteiro dramático. Essa mistura faz bem a obra, e gera curiosidade em como Sircilli construiu esse texto.

Durante a exibição, a fórmula de Fôlego se desgasta um pouco e o mirar em ser um objeto idílico faz o filme se perder um pouco nas divagações ultramodernas que propõe, ainda assim, há boas discussões e reflexões sobre a obsolência programada não só de produtos mas também dos homens e suas relações. O roteiro de Mariana Vieira, Moreno e Sircilli divaga demais e soa um pouco confuso, mas a beleza das imagens que Renato escolhe mostrar ajudam a tornar esse exercício de linguagem em algo singular.

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