[Crítica] Fome de Poder

John Lee Hancock é um diretor acostumado a trabalhar em dramas, nos quais é comum acompanharmos histórias de superação com uma certa mágica agridoce. Foi assim com Walt nos Bastidores de Mary Poppins, seu filme recente mais notável e também em Um Sonho Possível. Em Fome de Poder – ou The Founder no original – traz a história por trás do crescimento da marca McDonald’s para muito além do sul da Califórnia.

A história é focada em Ray Kroc (Michael Keaton), que após vagar atrás de uma boa ideia, acaba por acaso consumindo os hambúrgueres dos irmãos McDonald, Dick (Nick Offerman) e Mac (John Carroll Lynch). Com o decorrer do roteiro, se mostra a evolução de um estabelecimento pequeno para um negócio expansivo e em grande escala. O filme trata de mostrar o método de produção dos alimentos como algo já planejado por seus idealizadores, mas que ainda mantinha em si uma essência de produto pequeno, feito de maneira pessoal para poucas pessoas.

A vontade de crescer e a ganância de Ray se contrapõe ao desejo de ser apenas auto-sustentável dos irmãos McDonald’s é executada de uma maneira quase branda, e por vezes inspiradora em tudo que envolve o antigo intérprete do Batman. Mesmo quando seu personagem se mostra duro, irascível ou antiético é mostrada uma face benevolente, de quem faz sacrifícios mas só quer o sucesso típico das ambições derivadas do modo de vida americano.

A maior malícia do texto é mostrar como o ideal do sonho americano influi diretamente no modo de operar de Kroc, justificando de certa forma até seus rompantes temperamentais. Os conflitos poderiam ser grandiloquentes, mas a maioria é contido, na eterna tentativa de não demonizar o grande empresário.

Toda a bobagem advinda da auto-ajuda empresarial do protagonista é analisada pela câmera de maneira imparcial. O calcanhar de Aquiles de Fome de Poder está exatamente no ponto que deveria ser a sua qualidade, que é a de não tornar Ray um vilão. Ocorre que, em diversos momentos o longa faz crer que seus esforços valeram a pena e que todas as desonestidades impetradas por ele eram na verdade persistência, e não o expansionismo capitalista clássico. Qualidade indiscutível é a construção de caráter que Keaton faz para seu personagem, conseguindo com maestria mostrar o quão complicado era Ray Kroc, unindo aspectos adoráveis e odiáveis em sua conduta, soando harmônico mesmo em posturas tão antagônicas, mas ainda assim é pouco diante de uma história tão complexa.

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