[Crítica] Força Maior

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A empatia com os protagonistas de Força Maior é praticamente automática, visto que a história se passa em um comum ambiente de férias familiares. Tomas (Johannes Kuhnke) tem uma relação aparentemente perfeita com sua esposa Ebba (Lisa Loven Kongsli). A uniformidade de pensamento apresenta-se até nos trajes de dormir, todos azuis, mostrados em cima da mesma cama que os pais dividem com os filhos Harry  (Vincent Wettergren) e Vera (Clara Wettergren). Feliz, o clã se instala em um hotel caro nos Alpes suecos, em localização próxima de uma montanha gélida, onde costumam ocorrer avalanches de médio porte.

Em um evento natural de desmoronamento, a neve invade o hall descoberto, onde os hóspedes se alimentavam, assustando todos. A cena demonstra a firmeza de caráter de Tomas, que já no início não teme largar os seus, fugindo rapidamente para sua própria sobrevivência, enquanto sua esposa permanece com as crianças. A covardia ficou mais evidente e vergonhosa quando se percebe que o fenômeno foi de pequeno porte, sem vítimas. No entanto, apesar do descontentamento primário, a costumeira hipocrisia faz com que as partes retornem ao convívio, numa referência clara ao conceito defendido por Nelson Rodrigues de que é preciso muito cinismo para permanecer casado.

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Ruben Östlund faz uma direção contemplativa, exibindo a bela paisagem fria, que causa por si só uma estranha sensação de isolamento e obrigatória reflexão. Reflexão que só não atinge o espaço comercial hoteleiro, o qual funciona como uma bolha, livrando os que estão instalados de qualquer sensação inconveniente ou incômoda, exceto, é claro, pela possibilidade de deslizamento de neve.

A “derribada imaginária” do local e a discussão com outras casais fazem Ebba conversar finalmente sobre o que aconteceu, desabafando, enfim, sobre o abandono que sentiu ao ficar sozinha no deck. A câmera enquadra-os normalmente em plano americano, mas de modo tão invasivo quanto um close na figura desnuda do homem, já que a intimidade dos dois é escancarada e mostrada como algo vil e traiçoeiro a partir daquele momento. Negação e frustração andam juntas, fazendo refletir sobre o que realmente fez unir aquele casal no sagrado matrimônio e o que os motiva a prosseguir juntos.

A crise existencial finalmente acomete Tomas, que, mesmo no período de interrupção de sua rotina, busca ajuda para retornar à normalidade de pensamento e ação. Sua relação antes límpida e angelical ganha conotações reais, nuances e defeitos capazes de serem sepultados rapidamente. O descuido do patriarca inviabiliza sua permanência como figura de respeito e respaldo, invertendo o paradigma em que ele vivia nos últimos anos, obrigando-o a revisar o próprio modo de agir e encarar o mundo, sem ter nem de longe a mesma complacência de antes, por parte de Ebba.

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Após ficar longe dos seus por um período breve, o marido retorna ao lar somente para encontrar um ambiente demasiado hostil, semelhante ao de casais que tentam se reconciliar após uma das partes trair a outra. A sensação que predomina na esposa é de exata infidelidade, mas não física, e sim de alma e ideologia. Um perdão é quase inviável, seja por qual via ele corra, tanto do culpado quando do culposo.

A indecisão impera nas cabeças da família numa tentativa irremediável de negar a realidade depressiva que a envolve. Os acordes clássicos, sempre interrompidos quando tocados ao longo do filme, finalmente têm sua música prolongada após a resolução da situação familiar, que enfim sai da letargia para a vida comum. O conjunto de ações do elenco, especialmente no embate entre Johannes Kuhnke e Lisa Loven Kongsli, é o sustentáculo da tragédia do fim de uma relação há muito construída, e da trágica sensação de paranoia que impede o homem de raciocinar além de seus antigos traumas. Força Maior cruelmente brinca com a sensibilidade do espírito humano.