[Crítica] Gabriel e a Montanha

Saudade é uma palavra da língua portuguesa que não possui similar em outras línguas. Essa sensação não é exclusiva dos brasileiros, mas certamente acompanha o ideal do país e é baseado nesse sentimento que se ergue Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa, onde traduz a trágica história de Gabriel Buchman, um rapaz que se lança em uma viagem pelo mundo para que ele possa superar o falecimento de seu pai. O rapaz faleceu no Quênia, tentando escalar o Monte Mulanje.

Há algumas semelhanças óbvias com 127 horas de Danny Boyle. A persona que João Pedro Zappa emprega é a de um garoto preocupado com o próximo e de hábitos simples. Logo o espectador trata de torcer por ele, mesmo que ele pareça ser um menino apressado e desorganizado demais para alguém que não quer soar como um simples turista.

É curioso que a parte em que mais se fala português seja a mais controversa de toda a trama. O acréscimo da namorada de Gabriel, interpretada por Caroline Abras serve como divisor de águas, de fato, seja pela homenagem justa ao par do biografado nos seus últimos dias, como no mergulho dentro de sua humanidade. As discussões entre o casal podem ser encaradas tanto como um desvio do foco da viagem do personagem-título, como também um mergulho em sua intimidade e real identidade. Apesar da visceralidade e de ser esse o único momento em que as pessoas realmente são o que elas são, há uma quebra de ritmo e uma dificuldade enorme do roteiro em retomar de onde parou a obstinação do rapaz viajante.

Seus sonhos e obstinações são retratados por uma câmera que começa em um clima quente e termina de modo lamentoso pelas escolhas do rapaz. Mesmo que de forma involuntária, há um julgamento moral sobre as atitudes de Gabriel, e isso dá ao drama contornos maniqueístas.

Acompanhe-nos pelo Twitter e Instagram, curta a fanpage Vortex Cultural no Facebook, e participe das discussões no nosso grupo no Facebook.