Crítica | Glória Feita de Sangue

A liberdade (geralmente dificultada pelos paradoxos das histórias e conquistada a duras penas e a qualquer custo) sempre foi o principal tema subjetivo e implícito em todos as obras repletas de outras temáticas de Stanley Kubrick – filmes estes encarados sem exceção e merecidamente, nessa altura do campeonato, como indiscutíveis marcos na história do Cinema. A liberdade de expressar sua rebeldia, sua anarquia e sua imoralidade livremente, constituindo-se pelo viés da agressividade e da desumanização de um homem, de sair da Terra e alcançar novos mundos interestelares, de lutar por ela nos tempos de opressão absoluta no suntuoso e inabalável império romano – a liberdade de se romper os grilhões do normativo casamento para buscar o oculto, e os outros lados das relações sexuais indo além do ciclo monogâmico marido-e-mulher.

Ironicamente, o filme que melhor emblema e interpreta essa questão pelos olhos do diretor, Glória Feita de Sangue, veio logo antes do projeto mais repressivo a Kubrick, o turbulento e grandioso Spartacus, de 1960, cujos aspectos da produção o mesmo, como já bem se sabe, não obteve os êxitos de controle sobre praticamente nenhum deles, devendo com seu gênio incontrolável se submeter ao livre-arbítrio do estúdio e nada mais, sendo talvez nessa hora, ainda no começo de sua carreira meteórica que ainda influencia por demais cineastas do século XXI, que o lendário diretor e intelectual fez compreender a sua presença num campo minado.

Campo de guerra no qual sua vida profissional se resumiu, tal como um dos seus melhores filmes dignos de intermináveis e elucidativos ensaios e aulas sobre linguagem cinematográfica consegue ser abreviado sem ser rebaixado no que tange seu significado, moral e importância histórica em cenas-chaves que fazem-lhe ser, no mínimo, marcante. Após inúmeras revisões é revelado o quão incrível, e em tão pouco tempo de projeção, Kubrick costura imageticamente um sem-fim de cenas que servem como base a inúmeras discussões sobre se a obra, situada na Primeira Grande Guerra, mereceria de fato ser taxada contra ou a favor do exército, ou se, na melhor das hipóteses, é contra a guerra na verdade, sendo talvez neutra às suas instituições de combate. Curioso como o cineasta não toma lados mas nos convida a tanto, no nosso envolvimento fiel com a história e seus desdobramentos, contando com grandes atores pra isso.

Como bem afirma o crítico francês Michel Ciment no ótimo Conversas com Kubrick (editora Cosac Naify, 2003), “certamente havia nos dois filmes aqui já citados um questionamento implacável sobre as relações entre mestre e escravo e dos sistemas de opressão, mas, como ficaria claro aos poucos, o quanto que o pessimismo de Kubrick excluía qualquer dialética marxista de progresso”. Ora, o liberalismo, a anarquia e o ceticismo político que o criador embutia nas suas crias tornava-se na sua filmografia cada vez mais robusto e claro pelo final dos anos 50 e ao longo das décadas a seguir, estourando obviamente com o ultra polêmico (até hoje) Laranja Mecânica, de 1971. Assim sendo, o levante do gladiador Spartacus contra seus senhores escravagistas é comandado pelo mesmo instinto guerreiro que faz o coronel Dax (Kirk Douglas) se opor aos caprichos e ao cinismo militar de seus generais fidalgos – atitude que mobiliza e subverte boa parte do que o filme afigurava-se ser, no início. Craque em revirar o limite das realidades dos seus próprios manifestos, o mestre conseguiu sem críticas baratas ao sistema ou apologias dramatúrgicas criar a sua principal e mais bela ode não a rebeldia, mas ao espírito libertário de um ser-humano, militarizado mas muito bem encarnado por outra lenda, Douglas.

Só depois do ator topar participar do filme, então um sinônimo ambulante de bilheteria, o lendário estúdio United Artists topou financiar o projeto sobre o conflito que traumatizou uma geração inteira. Filmado na Alemanha, perto da cidade de Munique, e nas proximidades do palácio barroco de Schleissheim, Kubrick estudava estratégia militar e o funcionamento de uma mentalidade militarizada entre as filmagens, tentando extrair veracidade e o naturalismo que pode habitar na ficção de ambientes aristocráticos e na pulsação ansiosa dos fronts onde aloja sua câmera, seus sons, seus atores e suas relações de poder, apontamentos e acusações tensas.

Em meio a tentativas nobremente esforçadas e elegantíssimas de se estabelecer uma atmosfera coerente tanto ao conflito bélico, quanto a momentos políticos paralelos ao mesmo, convidando mais e mais o espectador questionador a reflexão, Glória Feita de Sangue, portanto, é uma inesquecível peça de arte de altíssimo nível, capaz de envolver as pessoas em tais conflitos de consciência (des)humanos e universais, fazendo-nos sentir identificados à tensão física e psicológica as quais soldados comuns e veteranos de guerra passaram na pele, entre suas trincheiras e seus palácios, tendo constantemente seus códigos e o futuro de suas nações postos à prova. Sem quaisquer ufanismos gritantes distribuídos como num filme de Steven Spielberg ou Clint Eastwood, o impacto do pictórico aqui não cede à ajuda de cores saturadas que atraem as plateias abobalhadas de hoje em dia nos complexos multiplex dos shoppings, algo que absolutamente não se faz preciso aqui.

Vide a famosa cena (tão bela quanto o rastejar espião de três soldados em território inimigo antes do primeiro bombardeio, graças a exímia composição de imagens monocromática em fullscreen) de Kirk Douglas, em travelling extenso e fluído, nas trincheiras infestadas de soldados amedrontados entre uma polifonia de explosões e agonia quase que visível, senão avistada nas faces dos compatriotas submetidos à um apito de guerra, e em seguida, à morte coletiva. É nisso onde podemos sentir claramente como Kubrick ainda não deixava sua técnica hiper afiada guerrear contra a essência de seus filmes cada vez mais intrínsecos, daqui em diante, ao poder extremista do ótico, sendo que já conseguia tratar neste seu segundo grande filme a modulação do tempo das suas maravilhosas sequências filmográficas que exclamam o que elas são por si só, tal qual outros inúmeros trabalhos de incrível refinamento dos seus colegas hollywoodianos da época de ouro e prata sobre os mais diversos temas e mantos, enclausurados em sonhos de grandeza artística e descobrindo na luta contra estúdios estarem num legítimo campo de guerra.

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