Crítica | Godzilla (2014)

Black-and-White-Godzilla-2014-Poster

Engenheiro responsável por uma usina nuclear no Japão, Joe Brody (Bryan Cranston) cria seu filho Ford sozinho após perder sua esposa, Sandra (Juliette Binoche), num acidente que leva ao fechamento do local e ao isolamento de todo o entorno. Quinze anos após o acontecimento, Joe ainda acredita que não houve um acidente e Ford (Aaron Taylor-Johnson), casado e com um filho, acha que o pai está obcecado com essa ideia por não aceitar a perda da esposa. Os eventos que se seguem demonstram que Joe não estava enganado.

Filmes de super-heróis, monstros e catástrofes são autoexplicativos. E Godzilla cabe perfeitamente nas duas últimas categorias. Salvo detalhes que diferenciam a trama, mesmo que ligeiramente, filmes de Godzilla obrigatoriamente têm o lagarto gigante invadindo cidades e causando destruição. E este não foge à regra. Porém a história é conduzida de modo a não ofender a inteligência do espectador. Há clichês? Lógico. Aliás, como escapar deles num filme do gênero? Há justificativas científicas meio capengas, que não resistiriam a um crivo mais exigente? Sem dúvida. Mas, convenhamos, num filme de monstro, quem em sã consciência está preocupado com a legitimidade das explicações? Quem vai ao cinema para rever Gojira quer basicamente apenas duas coisas: um monstro que seja grandioso o bastante para meter muito, muito medo, mesmo que estejamos seguros na poltrona; e muita destruição causada pelo monstro. E se houver uma luta entre monstrengos, ainda melhor.

A nova adaptação de Godzilla entrega isso e muito mais. Uma boa solução do roteiro foi não incluir um casalzinho romântico ou uma família em perigo para aumentar a carga dramática (e melosa) da trama. Os dramas humanos ocorrem, mas não são foco da história. Não há o intuito de criar tensão desnecessária a ponto de fazer o espectador chorar pelos personagens, algo que enfraqueceria a narrativa. Afinal, é um filme de monstros, oras! E não um romance água-com-açúcar que acontece enquanto uma catástrofe atinge a cidade.

Outra boa sacada foi não apresentar o monstro no início e passar o restante do filme mostrando a humanidade – leia-se “os americanos” – perseguindo-o e tentando matá-lo. Seria um lugar-comum. Dessa vez, o objetivo do monstro não é invadir e destruir cidades. Godzilla e os outros passam pelas cidades e, consequentemente, devido ao seu tamanho,  saem pisando em veículos e pessoas, além de destruir construções. O mesmo que nós, humanos, fazemos ao passear num campo, por exemplo. Não saímos de casa com o intuito de aniquilar formigas ou amassar gramíneas. Apenas acontece enquanto andamos.

Bebendo nitidamente da fonte de Spielberg, em Tubarão, a aparição “de corpo inteiro” de Godzilla demora a ocorrer e é precedida de várias cenas em que o vemos apenas de relance ou envolto por névoa. Quando finalmente surge a cena completa, a espera é compensada. Difícil evitar uma exclamação de admiração pela grandiosidade do monstro. Não dá para não pensar “Finalmente, um lagartão bem feito!”. Não é apenas bem composto digitalmente, mas fiel ao Gojira original japonês, sem aquele ar de T-Rex que tinha o Godzilla, de Roland Emmerich.

Se há algo que chama atenção além do monstro (lógico) é o som do filme. Não apenas a trilha sonora de Alexandre Desplat  lembra um pouco a de John Williams em alguns momentos, mas o design de som também se destaca ao evitar pontuar todas as cenas com a trilha, fazendo ótimo uso do silêncio (recurso dramático infelizmente subutilizado, principalmente em blockbusters). Criando a tensão necessária para amplificar a aparição triunfal de Godzilla.

Não resta dúvida de que para ser melhor do que o filme de 1998, com Matthew Broderick, não precisa muito. Mas a produção vai além: consegue fazer o público esquecer que aquela versão existiu e tornar esta o definitivo filme de Godzilla.

Texto de autoria de Cristine Tellier.