Crítica | Gran Torino

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Gran Torino foi o último filme de Clint Eastwood em que ele apareceu como ator e parecia, antes do anúncio de Curvas da Vida, que seria efetivamente seu último trabalho de atuação. Ao abandonar o posto de protagonista de suas próprias histórias, Eastwood construiu um filme que fala justamente de legado e tradição.

No entanto, a tradição aqui vai além do ritual vazio ou da admiração desinteressada pelas coisas “antigas”. Tradição em Gran Torino passa pelo respeito profundo às origens e à identidade.

Walt Kowalski é um homem de origem polonesa que acaba de perder a mulher e vive distante dos filhos em um bairro tomado por imigrantes asiáticos. Kowalski é nacionalista e conservador e olha com desconfiança tanto para a nova população da vizinhança quanto para os filhos que compram carros japoneses e para a neta com piercing no umbigo.

Por uma série de eventos, incluindo uma tentativa de roubo de seu Gran Torino, Kowalski se aproxima da família vizinha e acaba descobrindo que os imigrantes compartilham suas opiniões e sentimentos muito mais que a própria família. É quando vê o respeito e o cuidado com que as tradições são respeitadas que ele começa a desenvolver carinho pelos dois jovens da casa ao lado.

A tradição enquanto algo que deve ser cuidado e respeitado é representada no próprio carro: esse Gran Torino não tem valor apenas por ser um carro de 1972, mas por ser um carro bem cuidado de 1972. A neta de Kowalski deseja o carro porque é legal ter algo “vintage”, a gangue local como uma forma de status, mas é Thao que herda o carro: apesar de não ter laços de sangue com Walt, é ele que entende o valor depositado ali.

Se, por um lado, Eastwood defende a preservação e o respeito às tradições, por outro ele crítica o ritual que se torna vazio. Em Gran Torino a igreja aparece como um padre que mal chegou na idade adulta e não entende nada da vida; a instituição em si perdeu o sentido e continuar indo à missa ou se confessando se torna um teatro patético.

Em Gran Torino, Eastwood dialoga com sua própria imagem: seu personagem é construído em cima das expectativas e dos clichês que se acumularam nele, tanto pelos papéis no cinema quanto por sua posição de republicano. A cena final do personagem lembra a figura imponente dos filmes de Leone, o cowboy decadente de Imperdoáveis e o tipo de homem que ele encarnou tantas vezes em vários de seus filmes.

A fotografia é toda lavada, como uma polaroid, e a direção de arte enfatiza a decadência do bairro. Gran Torino é um filme sobre tradição, mas reconhece em sua própria forma que algumas coisas estão ficando para trás.

É um filme sobre fazer as coisas de uma certa maneira, sobre o valor que reside na permanência. É também um filme sobre legado: como e por que essa tradição tem que continuar, já que muitas vezes os laços que pareceriam óbvios não são aqueles que a sustentarão.

Em Gran Torino, Clint Eastwood se volta sobre sua própria imagem e sobre tudo aquilo que dizem dele, e parece reafirmar e de certa forma justificar aquilo em que acredita. É um dos filmes mais otimistas do diretor e talvez aquele em que ator, diretor e personagem melhor se articulam.

Texto de autoria de Isadora Sinay.