Cinema

[Critica] Grand Central

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Rebecca Zlotowski está à frente da controversa produção francesa Grand Central. A diretora já havia abordado temas espinhosos em seu primeiro filme, Belle Epine, em que falava sobre temas ligados à delinquência juvenil. Na fita de 2013 ela foca sua história em Gary (Tahar Rahim), um inconstante rapaz que transitou entre muitas atividades sem jamais se firmar profissionalmente em nenhuma delas. Finalmente consegue o seu intento ao ingressar numa empresa que trabalha material radiativo, e nela consegue o que tanto procurava: estabilidade, segurança no trabalho e um salário decente, apesar das queixas alheias por não ter uma formação das mais versáteis.

Gary se aproxima do colega de trabalho Toni (Denis Menochet, o Monsieur LaPadite de Bastardos Inglórios), a princípio para conseguir dinheiro emprestado. Ao chegar à casa do companheiro, Gary analisa os cômodos, especialmente o quarto, flagrando com olhos curiosos e desejosos a cama, por fazer, dele e de sua companheira. O cotidiano de Gary é bagunçado, sua vida parece um desalinho enorme. Além de muita desorganização, sua família está aos pedaços e algo fora desta realidade já seria um enorme suspiro de alívio para sua triste existência. Por meio de uma jocosa armadilha, ele se permite levar por uma tentação e pelo desejo pelo proibido.

Karole (Emma Seydoux) é esposa de Toni; tão debochada e fingida quanto o marido, ela instiga Gary através de um gesto sexual nada sério, e se insinua para ele na frente de todos. Sua brincadeira é acompanhada de risos gerais, inclusive de seu esposo, o que a livraria de qualquer complexo de culpa, assim como resguardaria sua imagem de suspeitas de indiscrição. Ela também trabalha na multinacional e enfrenta as mesmas situações complicadas e perigosas que acometem o protagonista. As condições de exposição à radiação são analisadas constantemente para que os funcionários não corram tanto risco de contaminação.

O primeiro contato da dupla fora do ambiente controlado e sem a presença de Toni é de conflito. Os dois se seguram para não demonstrar desejos carnais. As faíscas saem e a proximidade do contato epitelial é sufocante. As coxas de Emma Seydoux parecem chamar a presença do protagonista, assim como seus seios. Ela não está tão sensual como em Azul é a Cor Mais Quente, mas ainda assim é muitíssimo sexual e voluptuosa. E o inevitável finalmente tomou forma. A dupla de infiéis tem dificuldade em reincidir a relação, mas não deixam de ter o desejo mútuo de repeti-la, apesar dos pesares.

O medo não é o de serem pegos, mas sim a culpa devido ao pecado que ambos cometem. O roteiro é bastante verossímil na abordagem da dúvida, tendo em si muita veracidade e coerência, mostrando que, apesar de a infidelidade ter sido gerada por movimentos impulsivos, os envolvidos tentam manter ao máximo o controle de suas atitudes, temendo ser descobertos e usando sempre o mesmo local para a prática ilícita de amor. O envolvimento emocional os faz serem imprudentes, como se vivessem uma paixão adolescente totalmente sem fronteiras ou restrições. A evolução sentimental os faz sentirem-se como se andassem sobre as nuvens, em uma atmosfera leve e sem julgamentos.

A dupla vida que leva mexe com a psiquê de Gary, e ele pensa duas vezes antes de socorrer o marido de sua amada, numa ação que poderia dar fim não só a vida do acidentado, mas também a sua. Karole classifica esta ação como uma tentativa dele de bancar o herói, situação que se agrava com a notícia de sua gravidez — piorada e muito pela incapacidade de Toni em gerar filhos. As intenções de Gary parecem ser claras em relação a ficar com ela, já Karole não é completamente clara quanto às suas vontades, trazendo uma versão para cada um de seus parceiros. Logo o temor de Gary se cumpre, e ela escolhe o affair mais antigo. Sensações de solidão e de ter sido usado predominam em seu ser. A sucessão de eventos o prejudica demais e o faz perder tudo que considerava importante: seu emprego, seu lugar na comunidade e, principalmente, sua musa. Não fica difícil para ele perder a cabeça e agir sem raciocinar, e numa desesperadora tentativa de reaver o que tinha perdido, comete os piores atos possíveis para si mesmo e para aqueles a quem jurava amor, quase pondo fim à própria vida depois da desilusão. Sua última cartada faz efeito, pelo menos a priori, e surte um efeito o qual tinha poucas esperanças de conseguir.

O roteiro de Zlotowski e Gaelle Mace aborda não só a grave questão da infidelidade nas relações amorosas e profissionais, como também expõe uma problemática muitíssimo discutível do ponto de vista da ética do trabalho junto às precárias condições e da exploração da mais valia por indivíduos sem muitas oportunidades. A grande questão nas duas proposições é até onde é justa a corrida para se fazer o que deixaria o indivíduo (individual) feliz e plenamente satisfeito, mesmo que às custas do sofrimento alheio.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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