Cinema

[Crítica] Grease: Live

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grease live - vortex cultural

Grease é um musical que conta a história de uma garota inocente, bela, recatada e do lar que se apaixona por um delinquente juvenil que tenta abusar sexualmente dela em um drive-in. A garota então percebe que precisa mudar todo seu modo de vida para agradar a seu homem e passa então a assumir comportamentos de risco, sendo submissa aos seus desejos. Vendo dessa forma, não parece nem um pouco com a divertida história que nos vem à memória ao nos lembrarmos do filme de 1978, com John Travolta e Olivia Newton John nos papéis principais. Mas a versão original, apresentada nos palcos de Chicago em 1971, era ainda mais crua e rude. Então, para chegar ao século XXI com uma nova roupagem este ano, Grease: Live teve que se tornar mais "família" do que suas versões anteriores.

Exibido ao vivo pela Fox no dia 31 de janeiro de 2016, o musical mistura produção cinematográfica e teatral, com cenários móveis e tomadas externas. Embora um ou outro corte de cena pareçam segundos atrasados ou adiantados, em geral temos uma edição muito boa para uma apresentação ao vivo. A cena de abertura, com uma tomada contínua durante a belíssima interpretação de Jessie J. para Grease is the word mostra que problemas relacionados ao tempo chuvoso nas filmagens da externas foram solucionados incorporando o clima à história.

Com Julianne Hough no papel de Sandy Young e Aaron Tveit como Danny Zucko, a história nos é apresentada de forma mais moderna, não apenas normatizando as relações e papéis atribuídos aos gêneros, mas até mesmo, levemente, questionando-os. Sandy não é apenas uma garotinha ingênua, pois também demonstra ter desejos sexuais durante todo o filme (não apenas no final, como na versão de 78), embora seja bastante reprimida. O comportamento "escroto" de Zucko se mostra mais evidentemente como pressão dos pares, e em alguns momentos fica bastante claro que ele também está apaixonado por Sandy, mas não sabe como lidar com esses sentimentos.

A peça segue a mesma estrutura narrativa da versão de 1978, porém com alguns acréscimos bastante válidos. Um deles é a representatividade de pessoas negras no elenco -  ausentes na versão original. Duas canções tiveram palavrões retirados de suas letras (o carro Grease Lightening era um vagão de quê mesmo?), o que é compreensível em uma apresentação diurna de classificação livre. Mesmo assim, as menções e piadas de estupro continuam ("se um dos dois quer, então não há problema" é uma frase um tanto quanto ofensiva, e até mesmo a música mais conhecida, Summer Nights, ainda sugere sexo forçado em determinada parte). Keke Palmers faz uma excelente interpretação de Marty Mascarino (a garota que tem vários namorados estrangeiros) e corrige um problema do filme anterior, no qual ela flertava com um apresentador de televisão bem mais velho que ela. Na nova versão, o apresentador Vince Fontaine interpretado por Mario Lopez (o eterno Slater, de Uma Galera do Barulho) é dispensado pela garota, evitando uma possível apologia à pedofilia.

Vanessa Hudgens faz uma excelente Betty Rizzo, e sua performance se torna mais significativa ainda quando sabemos que o pai da atriz havia falecido um dia antes da apresentação ao vivo. Carly Rae Jepsen interpreta Frenchy e além de ter uma música inédita escrita especialmente pra ela, ainda contracena com Didi Conn - a Frenchy original!

O filme tem mais canções do que a versão anterior, e o clima geral ao fim é de bastante otimismo. As coreografias estão bastante sincronizadas e a escolha de se filmar com plateia é bem acertada. Embora tenha alguns problemas devido ao formato ao vivo, Grease: Live supera em muito o clássico, por mais que fãs mais acalorados possam negar.

Dan Cruz

Professor de História, marido, pai e Mestre dos Calabouços nas horas vagas. Viciado em quadrinhos e RPG, acredita que o Superman existe e sonha em ser um Lanterna Verde, pra combinar com sua camisa do Palmeiras. Gosta de sorvete de pistache, mas sempre esquece e acaba comprando de chocolate.
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