Crítica | Harry Potter e a Câmara Secreta

Eis o mais interessante dos Potter, e por muitos motivos ligados ou não ao filme; primeiro sua própria pegada, mais sombria do que nunca, sendo que parece uma obrigação toda sequência ser sombria, séria, dark desde O Império Contra-Ataca, coisa que às vezes dá certo (O Cavaleiro das Trevas), e outras vez não. Tipo aqui. A Câmara Secreta é um filme de suspense adolescente feito para criança, consumado para ser mais adulto até que alguém aparentemente gritou: “Ei, mas esse é um filme para crianças, esqueceram?”. A sensação é sempre essa, enquanto o sangue corre pelas paredes e vítimas de bruxaria das trevas aparecem aos montes nos corredores de Hogwarts, entre crianças curiosas e fantasmas da escola. Chris Columbus volta a dirigir a aventura, muito mais cético e pessimista ao potencial do mundo de J.K. Rowling que antes, afinal a mensagem é clara: Harry Potter está crescendo, e com isso a ambição de quem financia suas travessuras e vê Cinema pela ótica do dinheiro, jamais da magia. Além da história e a pressão dos produtores, existe outra explicação para a Câmara Secreta ser o mais fraco da saga?

Numa cena, Harry, Rony, Hermione e cia. precisam desenterrar Mandrágoras, plantas vivas de alguns vasos numa aula interativa de herbologia, bem no meio do filme. Bingo! Essa é a chave para entender o filme todo, já que toda obra (artística ou civil) tem AQUELA parte que resume o todo, fazendo seus modeladores perderem suas horas de sono, mas é inevitável sentir o toque macabro e satírico da situação quando assistimos batatas assassinas guinchando fora do vaso. A gente ri, com nojo mas ri, sendo essa a única cena d’A Câmara Secreta cujo equilíbrio de sensações que o filme tenta passar é consumado, antes ou depois jamais atingido ao longo da projeção (mesmo na cena dos diabretes da cornualha onde o humor é bobo e fácil). Se no livro há uma especulação mais refinada sobre o que esconde essa misteriosa câmara, o filme parece estar mais do que ansioso à nos mostrar logo o que existe, lá, inseguro se mergulha de cabeça na investigação do lado negro da magia, ou se mantém o lado doce de antes. Em resumo: Uma antítese agridoce ao filme anterior.

E nem o quadribol salva os momentos mais divertidos de um filme com muitos interesses em jogo, o que só azeda o gosto do bolo: Manter ou ampliar o descomunal sucesso de A Pedra Filosofal, capturar com mais fidelidade esse universo de magia e prestar atenção no que os fãs querem assistir, sendo qualquer um dos filmes de Potter, mesmo o ótimo Prisioneiro de Askaban, produtos de fantasia feito quase que exclusivamente para o agrado dos fãs de Rowling. Se com De Volta Para o Futuro ou a primeira trilogia de Star Wars seus realizadores se preocuparam em elevar o nível do cinema de ficção-científica, Potter em oito filmes nunca se interessou em fazer parte do hall dos grandes filmes de fantasia, nunca pensou em maneiras criativas de explorar as narrativas do surreal, algo que os filmes de Nárnia até tentaram, mas falharam de forma não tão grande quanto este desnutrido e deslocado segundo filme do menino-bruxo. Pois o que salva tudo é seu carisma, afinal, e claro, a presença de Dobby, um dos melhores personagens deste universo.