Crítica | Harry Potter e a Pedra Filosofal

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Magia.
substantivo feminino
    1. arte ou ciência oculta com que se pretende produzir efeitos e fenômenos contrários às leis naturais; bruxaria, mágica.
    2. magnetismo, encanto.
    3. conjunto de crenças e saberes relativos aos possível uso ou domínio de forças impessoais que agem na natureza ou nos indivíduos.

(Fonte: Mini-Dicionário Aurélio da L. Portuguesa.)

No rápido livro Conversas com J.K. Rowling, a escritora afirma que recusou todos os convites para seu mundo bruxo ser traduzido na tela de Cinema, até mesmo a proposta da Warner, com medo do material não ser fiel aos livros que escreveu arduamente, muito antes de ser mais rica que a rainha da Inglaterra, ou a mais famosa escritora do mundo dos trouxas, por sinal. E é justamente esse cuidado e o apreço da Warner Bros. em assegurar, nas telas, a paixão em detalhes que até 2001 só constava no livro que fazem de Harry Potter e a Pedra Filosofal não um filme, mas uma adaptação feita mais para o público, que para a arte imparcial de se fazer filmes. Pois, mais de 15 anos após os fãs mais antigos assistirem Hogwarts, ao invés de apenas lerem Hogwarts, o primeiro filme carrega o principal sintoma a aparecer até o derradeiro da saga: A dificuldade de equilibrar, por mais de uma década, a fidelidade com o livro junto à fidelidade e peculiaridades do Cinema; duas mídias que nas mãos certas vivem felizes para sempre: Fato difícil e não atingido por um simples passe de mágica.

Chris Columbus sempre foi O Cara com crianças no cinema gringo, vide Esqueceram de Mim, Goonies e Gremlins (cujo roteiro do primeiro e da sensacional sequência dos monstrinhos são dele), sendo então o artista óbvio pra comandar a entrada da garotada ao universo infantilizado de Wicca e outras charlatanices embelezadas pela mitologia juvenil de Rowling. Columbus esculpe simbologias e transmite todo um amor de fã pra qualquer fã babar, frutos de uma leitura rica mas, tal o filme, mágica apenas para quem não precisa de muito para sentir o efeito 3D da jornada de Harry, órfão que sai das trevas de um armário, pega um trem e vai para a luz, por mais que essa jornada possa parecer com a jornada de muitos paulistanos… Harry é o escolhido, o sortudo, primeiro humilhado, no fim celebrado por seus passos de fé típicos de qualquer aluno da badalada Grifinória (uma das quatro casas estudantis de Hogwarts), e quem não quer ser da Grifinória, jogar quadribol ou aprender poções?

Assim, A Pedra Filosofal, a mais leve e despretensiosa obra da saga consumou, logo no início do século, o vício eterno pelo irresistível que nasce na literatura e acaba num cinema moderno regido pelos 3B’s do sucesso: Brilho, barulho e bajulação. De qualquer forma, o primeiro filme estabelece de forma graciosa um universo coerente, palco para o todo que Rowling promove realmente acontecer, com um elenco insubstituível e que marcou uma geração, mas jamais se apropriando da magia do Cinema para ser mágico – de acordo com suas definições “discionarescas”, lá de cima. Pois na tradição do extraordinário que escondem as imagens dos filmes do inglês Michael Powell, ou dos clássicos de Federico Fellini, entre poucos outros autores realmente admiráveis, tal Chaplin, o francês Cocteau e o indiano Raj Kapoor, A Pedra Filosofal é um divertido truque de Mister M diante das belas ilusões de Houdini que viriam a seguir, em Askaban. O mais impressionante, mesmo, é como o músico John Williams conseguiu resumir tudo com uma trilha sonora, essa sim, encantadora.