Crítica | Hellboy (2019)

Após as desavenças entre Guillermo Del Toro e Mike Mignola, muito se cogitou sobre a possibilidade de um novo cineasta assumir o personagem nas telonas, e a aposta de Neil Marshall parecia promissora, pois tal qual o condutor de O Labirinto do Fauno, Marshall também vinha da escola de filmes de terror com orçamento mais barato e repleto de monstros feitos com muitos efeitos práticos, assim como Del Toro, ainda que as comparações entre os diretores pare por aí. Pois bem, o resultado do novo Hellboy é controverso. Muito se falou que esse seria um produto feito para os fãs, mas o que se vê não é exatamente isso, além do que, um filme feito para o cinema de milhões de dólares de orçamento não é voltado apenas para um nicho de mercado.

A história começa em 517 d.C., mostrando a bruxa Nimue, de Milla Jovovich, combatendo o Rei Arthur. Suas vestes vermelhas sobressaem em meio ao preto e branco, e já nesse epílogo se mostra o quão violento, trash e gore seria o filme de Marshall. David Harbour vive um Hellboy que possui algum carisma, e remete ao personagem dos quadrinhos. O ator inclusive gastou um belo tempo conversando com o autor sobre seu protagonista, e ele acerta muito mais do que erra nesta versão. A trama é bastante calcada na ação, misturando três tramas dos quadrinhos, sem muito desenvolvimento para nenhuma delas. Nem mesmo para ambientar o espectador nesse universo ou mesmo na atmosfera do longa.

O visual de adaptação pulp que Del Toro fez dá lugar a efeitos mais baratos, lembrando inclusive alguns filmes da produtora Asylum (a mesma de Sharknado), e os CGIs são bastante artificiais, mas não há uma função narrativa que justifique isso, como acontece no recente Shazam!. É difícil acreditar que este produto funcionará comercialmente, fato é que a saga antiga não teve um fim e este corre um grande risco de também não ocorrer, e pior, abre-se  uma nova origem para o personagem que já nos quadrinhos é bastante polêmica. Quase todas as conexões com Avalon, Merlin e as leis arthurianas são mal aproveitadas, restando apenas apelação a clichês típicos de filmes de ação. Ainda que os filmes de Del Toro não fossem exatamente fiéis aos quadrinhos, o Hellboy de Ron Perlman era menos sisudo, mais bobo e quase infantil, mas ainda com margem para um crescimento e maturidade em filmes futuros, caso o tom do filme fosse outro. Em contrapartida, o personagem de Harbour tem menos personalidade e soa mais genérico.

O filme carece de bons coadjuvantes para conversar com o herói, até mesmo de um pouco de gravidade no roteiro, que deveria ser mais importante por se tratar do fim do mundo. Até mesmo nesse sentido o filme parece um erro, já que em seu primeiro longa opta por colocar o personagem para enfrentar o apocalipse, restando a dúvida do que poderia ser maior que os infortúnios do livro de São João unidos a fatos mitológicos anglo-saxões.

O desfecho é confuso, desapega das próprias regras estabelecidas e reduz tudo ao arquétipo do escolhido. Há muitas incongruências no plano da vilã, inclusive de falta de lógica, e é triste que um filme escapista consiga ser tão mal pensado. O visual do filme varia de qualidade, enquanto acerta com o protagonista, erra demais com os inimigos, remetendo até mesmo aos péssimos Tartarugas Ninja produzidos por Michael Bay. Hellboy, infelizmente é um filme com um roteiro vazio, e até mesmo os ganchos próximos dos créditos finais, que abrem possibilidade para novidades já conhecidas até do público de cinema, são mostrados de  maneira anti-climática, tal qual todo o restante do longa.

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