Crítica | High Flying Bird

Após uma longa carreira de sucessos, Steven Soderbergh passou a fazer filmes cada vez mais segmentados. Em A Toda Prova ele e Gina Carano fizeram um filme da ação com personagem feminino, e em 2018 lançou Distúrbio (ou Unsane, no original), seu primeiro longa filmado com iPhone, e este ano, em parceria com a Netflix, ele entregou High Flying Bird, um filme dramático, que utiliza o  esporte apaixonante que é o basquete para pavimentar sua historia, baseada no roteiro de Tarell Alvin McCraney, o mesmo que fez o argumento de Moonlight.

Começa com falas de jogadores recentemente draftados, em uma sala vazia e com fotografia em preto e branco, onde entrevistados falam abertamente sobre dificuldades  em viver como calouros das dificuldades da Liga, e aos poucos, fala sobre o cotidiano de Ray Burke (André Holland), um agente esportivo em dificuldades financeiras que vê zero possibilidade de sair dessa situação graças a briga entre donos de franquias da NBA, a Liga e jogadores, fato que ocasionou um locaute e uma greve de empresários.

Enquanto o filme corre, há mais inserções desse jovens jogadores falando de sua experiência, enquanto Ray tenta organizar a carreira de um primo, Eric Scott (Melvin Gregg) seu que quer ser jogador, enquanto convive com a bela Samantha (Zazie Beetz), e enquanto tenta fazer novas pontes com outros empresários. O personagem tem dificuldade em se reinventar e o maior mote do filme é esse, a forma como ele lida com parente mimado, com a imprensa e com a possibilidade de arruinar não só sua carreira como a de Scott.

Holland é um bom ator, e é cercado por um elenco talentoso, que fortalece seus dotes. Além dos já citados, Bill Duke faz Spence, um treinador experiente, que trabalha com crianças e acaba sendo o mentor do mesmo, e é impressionante que, mesmo em meio a crise capitalista e os meandros mesquinhos de empresários e engravatados do basquete, o esporte ainda inspira seus personagens, em especial André. Quando sua crise sentimental se agrava, ele apela para treinar lances livres, a fim de se acalmar.

Sua terapia envolve o ofício dos meninos que ele agencia, e a forma como Holland se derrama em quadra, discutindo com o experiente treinador, e High Flying Bird, além de mostrar obviamente a historia do agente/empresário que tenta ganhar a vida ligada ao esporte, serve como um irmão espiritual de Os Bons Companheiros, prestando aos jovens aspirantes a voz que normalmente não tem, tal qual ocorria aos wiseguys e gangsters menores no filme de Martin Scorsese. Após O Poderoso Chefão, havia a mentalidade de que mafiosos eram pessoas glamourosas e sem preocupações triviais, e o roteiro de Martin Scorsese e Nicholas Pileggi desconstruiu isso, assim como o script que McCraney tem o mesmo espírito, de mostrar que ingressar na NBA é sim o sonho de muitos meninos, e que a maioria deles não tem estrutura emocional e física para lidar com isso, e quase não há para quem eles apelarem.

O drama que Soderbergh propõe é universal, vale tanto para outros esportes como futebol, onde uma minoria ínfima ganha como Messi e Cristiano Ronaldo e outros tantos passam fome, como com outras profissões que são encaradas como sonho de consumo da maior parte da população. Apesar de parecer um pouco insosso em seu início, o filme trabalha bem a idéia de demonstrar o quão frágil é o American Way of Life e o conjunto de necessidades consumistas e metas inalcançáveis que vem a partir dessa mentalidade, causando em jovens uma ansiedade desnecessária e uma corrida do ouro desenfreada que faz capturar muitas mentes e corações para um sonho que deveria ser apaixonado e inspirador mas que soa mesquinho e materialista.

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