[Crítica] Honkytonk Man

Honkytonk Man - poster dvd

Em 1982, duas produções dirigidas por Clint Eastwood chegaram às telas, evidenciando um caminho duplo pelo qual o astro percorreria até o início da década de 1990: uma vertente comercial de maior apelo, caso de Firefox – Raposa de Fogo, e outra mais autoral, explorando histórias com enfoque dramático ou policial, normalmente adaptadas de boas narrativas literárias.

Se observarmos um panorama do diretor com base na recepção contemporânea de sua carreira, com tais filmes sendo discutidos e reeditados em edições especiais e de formatos diversos, é perceptível que alguns deles permaneceram com um destaque menor do merecido, principalmente nas obras entre a década de 1980 até início dos 1990, quando Os Imperdoáveis, em 1992, foi um marco. Mesmo que algumas dessas sejam transições para grandes produções, há histórias que ainda merecem maior atenção e que demonstravam um talento nato atrás das câmeras.

Honkytonk Man é o primeiro ponto de contato entre a música e o cinema realizado por Eastwood, temas que seriam entrelaçados futuramente em Bird e, recentemente, em Jersey Boys – Em Busca da Música. Mantendo o estilo consagrado de seus personagens, o ator interpreta o músico Red Stovall, um cantor itinerante que, após visitar a família, viaja com seu sobrinho até Nash, Tennessee para uma importante audição em uma rádio nacional. Baseado no romance de Clancy Carlile, a trama se passa na Grande Depressão americana e foi adaptada pelo próprio autor para as telas.

Se o cowboy é uma representação de um tempo específico da história americana, o ator personifica nesta história um outro tipo característico desta cultura: o músico de country e folk que percorre circuitos alternativos cantando canções renomadas e composições próprias (o honkytonk do título se refere a um bar tipico do sul e sudoeste americano, normalmente frequentado pela classe trabalhadora). Um estilo musical cuja raiz evoca a parte rural dos Estados Unidos e resgata uma tradição de canções antigas, clássicas e folclóricas reconstruídas e modificadas por gerações anteriores. Uma personificação romântica de um homem solitário em companhia de seu violão dando vazão a uma expressão lírica sentimental, um contraponto com uma aspereza local e a vida de farto trabalho, do aspecto social que se universalizou e se transformou em estilo musical. Como um lamento, o folk/country se tornava uma representação do sentimento de parte da população americana, um instrumento de catarse diante da situação sócio-econômica desoladora.

A dualidade entre bruto e sensível se mantém na aparência rude do músico, a composição tradicional de Eastwood, movimento para esconder a essência sensível e frágil, um tema muito versado pelo diretor em sua carreira. Vindo de uma família de trabalhadores que perde seu sustento depois de uma tempestade de areia, Stovall parece simbolizar um homem inconsequente, mas que carrega dentro de si uma doença incurável. Um aspecto trágico, coerente com o cancioneiro country sempre próximo de um lirismo romântico poético e fervoroso. Com certo nome no circuito de honkytonks, o músico compreende que sua audição em uma rádio em Tennessee é a última chance de alcançar o sucesso.

Em companhia de um sobrinho, interpretado pelo próprio filho, Kyle Eastwood, a dupla parte em viagem para o Teneesse. Talvez seja neste aspecto o motivo pelo qual a produção não tenha ainda alcançado o mesmo destaque do que outras obras anteriores do diretor, revistas e analisada sob outra perspectiva. Representando uma época diferente da sociedade, a presença do garoto Whit pode parecer politicamente incorreta nos dias de hoje. A relação entre tio e sobrinho é composta com certa adoração por parte do garoto, enquanto o músico permanece como um padrinho que retira o jovem de seu cotidiano na fazenda, iniciando-o no mundo adulto de carros, bebidas e mulheres. Uma composição coerente com sua época e bem conduzida pelo roteiro mas que, ainda assim, pode parecer dissonante à parte do público que não compreende a representação de uma época específica.

O roteiro também desenvolve uma sutil camada de humor em cenas específicas, demonstrando um personagem com uma leveza semelhante ao circense Bronco Billy ainda que carregada de um drama inerente. Aos que conhecem a figura de Eastwood sempre de cara fechada, é surpreendente ver o ator em cena de maneira bem humorada, sem ironia comum aos seus personagens western, compondo expressões faciais características da comédia.

Honkytonk Man é o primeiro momento em que a sutileza narrativa atinge o equilíbrio estável e maduro, desenvolvido com qualidade em uma trajetória com boa carga dramática. Uma obra que precisa ser revisitada pela crítica e ganhar um novo alcance do público. Ao lado de O Estranho Sem Nome é a melhor produção da lavra inicial do diretor.