[Crítica] Humano: Uma Viagem Pela Vida

“O sorriso é a única língua que todos entendem.”
(citação de um entrevistado)

Logo nos 20 minutos iniciais de Humano: Uma Viagem Pela Vida, é possível perceber que a pluralidade será uma constante na obra, abrangendo pessoas de diversos credos, idades, gêneros, etnias e assim por diante. Claro, logo se faz notório que essa opção multifacetada e como ela nos é exposta está dentro da programação da obra, o intuito é realmente demonstrar o quão diversificado somos, no entanto manter-se apegado “apenas” aos diversos arquétipos imagéticos em instância alguma corresponde ao cerne da questão implícita no filme. Assim que vamos tomando ciência dos depoimentos expostos no vídeo, começamos à notar que a diversidade visual que tanto nos salta aos olhos, só se faz coerente quando se vê complementada pelo que é dito pelos indivíduos, quer sejam elas expressas em palavras ou não, estando em harmonia ou convergindo de um quadro ao outro.

Focar-se unicamente na fórmula técnica adotada pelo cineasta, é redundante. Ainda que o diretor emule belíssimas imagens de caravanas aglutinadas de beduínos deserto afora, ruínas, paisagens naturais, tempestades em constante turbulência, seu palco é delimitado na face do próximo, focando-se nos relatos de seus entrevistados, nas histórias e em tudo àquilo que compõe a humanidade em sua mais sincera essência – a vida.

O diretor Yann Arthus-Bertrand não tenciona fazer um mapeamento geográfico, ele necessita do individualismo, porém não irá se prender em dizer se o ser humano que estamos vendo e ouvindo é um latino-americano, um asiático, especificar sua deficiência física ou de qual cultura tanto homem ou mulher em questão são pertencentes, porque isso acaba se tornando secundário diante o verdadeiro foco, tanto que nenhum nome é dito ao longo do processo. É evidente que isso não anula o fato de que o espectador por si só identifique tais aspectos nos entrevistados. A massa que inicialmente se faz disforme, sem perder sua peculiaridade vai aos poucos se revelando sob miríades e utopias, vai se transformando em uma forma composta por milhares de rostos e que, no entanto ou sobretudo, almeje apenas o elementar.

Preceitos básicos como o trabalho, amor, conquistas, descobertas, escolhas, dores e sorrisos, são uma recorrente e toda essa amálgama que indubitavelmente se faz regente é compartilhadas sob diversas camadas, o que muda de verdade são as histórias e seus ângulos quase sempre tão distintos. A intensidade ou alguma situação pode destoar em segundos, porém, aos poucos compreendemos que relativizar algo, algum relato, alguém ou mesmo um fato dentro da obra, é um erro. Nos damos conta de como qualquer relativização aqui seria estúpida, quando notamos às variáveis da psique humana. Por exemplo: em determinado momento somos confrontados com verbalizações de pessoas que sofrem por viver em condições precárias e já no depoimento seguinte somos apresentados há tantos outros seres que mesmo vivendo em abundância material, sofrem e padecem por outros motivos que não estão necessariamente correlacionados ao dinheiro e de como ambos estados mesmo que paradoxais, por si só não diminuem o peso de uma lágrima ou angústia, não se anulam. Toda essa montanha russa de emoções e de desnudamento é pronunciada ipsis litteris diante a lente da câmera que apenas registra o instante.

Essa imparcialidade na narrativa é uma grande virtude do documentário, que em momento algum almeja colonizar o pensamento de quem assiste. Cada ser assume o caráter de trazer consigo um universo à parte, cada relato exposto mereceria por si só um texto, portanto há medida que a obra avança e se aproxima do fim, é praticamente improvável não se pegar refletindo sobre algum depoimento ou alguma semelhança vivenciada por algum relator. Seria o homem realmente totalmente responsável por sua natureza, suas escolhas? Bem, pode-se dizer que talvez o maior trunfo desse projeto seja justamente suscitar reflexões e perguntas em seu público. Já as respostas, interpretações, julgamentos ou o que cada um levará de verdadeiro pra si após o término do filme, é algo impossível de se definir, afinal as possibilidades são múltiplas.

Texto de autoria de Tiago Lopes.

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