Crítica | Ilha

De Ary Rosa e Glenda Nicácio, mesma dupla de diretores que trouxeram à luz Café com Canela, Ilha começa com um rapto, de Henrique Santos (Aldri Anunciação), executado por Emerson (Renan Motta). Henrique é um cineasta e Emerson um jovem periférico, e o objetivo do moço é que o raptado faça um filme sobre sua jornada.

Desde o começo os dois personagens são focados pela câmera amadora de Emerson, em um argumento metalinguístico, que por incrível que pareça, consegue soar menos artificial que o longa anterior da dupla. Henrique obviamente nega a prestar seus serviços e só é convencido após muita insistência e ameaça.

Não demora para algumas atrocidades ocorrerem, o cineasta aos poucos se afeiçoa ao seu raptor, passa a confessar suas intimidades e pecados, e embora não soe um pouco inverossímeis à ordem dos fatos, os sentimentos ao menos parecem verídicos, assim como as atuações do elenco, fato que já eleva bastante a capacidade de direção de Rosa e Nicácio.

Há uma tentativa desesperada do filme de soar natural, e isso transparece negativamente em alguns momentos. Os confrontos dos dois personagens masculinos, por exemplo, resulta em uma relação maior que o normal entre contador de história e personagem, transcende níveis de intimidade que já eram meio que desenhados de acordo com o lento desenrolar dos fatos, mas tem seu ápice em uma cena estranha e extremamente impessoal, quebrando a expectativa de intimidade que foi construída e resultando em um momento nada explícito e até bastante covarde.

Ilha se empobrece quando tenta soar como discussão a respeito da originalidade e da execução do cinema, pois seu roteiro não tem situações ou diálogos suficientemente complexos ou naturais para gerar uma reflexão minimamente profunda em seu drama, mas quando mostra os personagens vivendo e fazendo seus momentos mais íntimos, acerta um bocado mais. Toda a prerrogativa de ser um “filme de afeto” é de uma banalidade monstra, e por mais que muito se fale sobre esse assunto, a prerrogativa parece muito mais a tentativa de esconder a falta de conteúdo a discutir e inconsistências de roteiro do que realmente inaugurar um novo tipo de subgênero cinematográfico.

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