Cinema

[Crítica] Interlúdio de Amor

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Interlúdio de Amor - poster bd

Terceiro filme de Clint Eastwood do outro lado das câmeras e primeiro sem sua participação como ator, Interlúdio de Amor não demonstra a precoce versatilidade do diretor após incursão no suspense em Perversa Paixão e no western O Estranho Sem Nome, identificando um desejo de não se limitar a um único estilo de composição cinematográfica.

Neste romance simples, cuja base trabalha personagens em universos diferentes, um dos temas recorrentes em sua filmografia, a velhice, se apresenta como reflexão e contraste na relação que une Frank Harmon, um homem de meia-idade, divorciado e bem-sucedido, e a jovem Breezy, uma adolescente hippie de coração puro e libertário: representações distintas da sociedade da época.

Apoiada no enlace amoroso, a história não retrata as diferenças do casal, como um embate tradicionalmente ressaltado em muitas narrativas do gênero que usam a problemática para evitar o romance. A abertura sem julgamentos de uma relação aparentemente díspar, cuja idade se destaca como diferença evidente, produz um interesse genuíno entre os personagens, abertos o suficiente para ouvir um ao outro e, com isso, se encantarem, representando um estado de acúmulo sábio vindo de opiniões e vivências diferentes.

Mesmo que a garota pareça mais destacada no pôster e no título original do filme, o roteiro de Jo Heims (escritor de Perversa Paixão) mantém a leveza, mas não impede a compreensão dramática exposta na visão diferente de cada personagem. Porém, o enfoque é voltado à mudança entre a juventude e a maturidade, sendo esta última um equilíbrio entre o acúmulo de sabedoria em detrimento de um refreamento natural pelo medo de tudo que possa ser novo, aqui representado pelo amor e pela juventude da jovem. Simultaneamente, a visão da sociedade se projeta nos atos das personagens, gerando conflitos de preconceito devido à relação de idade entre o casal. Mesmo que o tema seja difícil, a trama enaltece a importância do casal e de como os pares consideram seu amor e sustentam-no perante estes preconceitos, aceitando-os ou não.

Eastwood demonstra domínio na direção dando pistas de seu estilo narrativo em câmeras de movimento e panoramas que se aproximam lentamente das personagens centrais. A fotografia, embora tradicional, é coerente com uma história simples, distante dos tons escuros presentes em grande parte de sua filmografia e identificados desde Perversa Paixão. Trabalhando com qualidade os clichês do gênero, Interlúdio de Amor surpreende por apresentar um registro narrativo bem conduzido, ainda que hoje seja difícil analisar a obra inicial de Eastwood sem permeá-lo com a aura de qualidade e paixão mútua entre o amor do diretor pela arte e a devoção de seu público.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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