Crítica | Inverno da Alma

inverno da alma

Inverno da Alma chegou sem muito alarde e com o tempo foi ganhando o respeito devido, seja pelas indicações e premiações que já recebeu, como pelas críticas positivas que vem recebendo pelo mundo. Só por isso, já seria o suficiente para perdermos um pouco de nosso tempo e conferi-lo, mas nada disso é necessário, pois o filme fala por si só.

Adaptado do romance de Daniel Woodrell, escritor americano de grande renome e conhecido por escrever sobre um gênero que remete a um thriller ambientado no interior dos EUA, o próprio autor criou um termo para seus livros, “Country Noir”, o que faz um certo sentido ao assistirmos Inverno da Alma.

Nesta adaptação do romance de Woodrell, temos a adolescente de 17 anos, Ree (Jennifer Lawrence), responsável por seus dois irmãos menores e sua mãe doente, que vive em um estado de catatonia, e se vê em uma situação difícil, já que é procurada pela polícia para entregar seu pai, um traficante que vem cumprindo pena em liberdade condicional. A grande problemática é que seu pai usou sua casa como garantia pela fiança e desapareceu, tornando-se assim um procurado. Com o risco de não ter onde morar, Ree, não vê outra saída se não encontrar seu pai.

Ao iniciar sua busca junto aos familiares próximos e por toda vizinhança a procura do paradeiro de seu pai, Ree passa a ter problemas em sua comunidade, que passam a condenar suas atitudes, já que vivem uma bastante comum “lei do silêncio”. Mesmo seu tio, Teardrop (John Hawkes) a proíbe de continuar suas buscas. O único apoio de Ree são alguns trocados, alimentos, baseados e outras drogas.

As personagens de Inverno da Alma, estão distantes de serem unidimensionais, pelo contrário, escancaram suas imperfeições sem estereótipos. Ree é uma adolescente apenas na idade, já sente a responsabilidade de cuidar da família e sabe que o destino deles depende dela, isso fica claro em momentos onde está com a mãe, e ela simplesmente desaba em lágrimas em busca de um auxílio que sabe que não virá, ou mesmo quando desafia a autoridade local e sua comunidade, mostrando quão dura pode ser. A atuação de Lawrence é intensa e repleta de nuances, demonstrando que apesar do rosto angelical e ainda jovem, tem talento de sobra para interpretar personagens fortes.

O mesmo ocorre com o coadjuvante em tela interpretado por John Hawkes, o tio de Ree e irmão de seu pai, Teardrop. Um personagem que a princípio se mostra duro e desinteressado pelo problema de sua sobrinha, aos poucos se mostra imprevisível quando decide fazer uma série de concessões para ajudá-la não importando onde isso o levará. O restante do elenco é impecável e em perfeita sincronia, demonstrando a dureza de um Estados Unidos bem distante do que estamos habituados a ver.

A fotografia de Michael McDonough é impecável, com uma paleta de cores frias que dão o clima melancólico e angustiante do local. Tudo isso demonstrado através das caminhadas da protagonista pelas locações, mostrando o relato de toda a miséria local e a sensação de não ter com quem contar ou o que esperar. O trabalho de direção da ainda novata (Inverno da Alma é seu segundo longa) Debra Granik é lindo de ser ver, criando uma narrativa extremamente densa e cheia de tensão ao longo do filme. A trilha sonora é a cereja do bolo, repleto de canções folk’s e country’s de encher os olhos.

A realidade de Ree é a realidade de pequenos grupos da sociedade, nos quais vêem como alternativa a produção de drogas como sustento, onde a lei está distante, e a violência e a miséria são um ciclo sem fim. O final do filme é duro e bastante pessimista. Difícil acreditar num futuro promissor para qualquer daquelas personagens.