Crítica | Invictus

invictus

Clint Eastwood retrata o período da vida de Nelson Mandela logo após assumir a presidência da África do Sul e se vê diante do drama em que a sociedade sul-africana se transformou após o regime do Apartheid.

Na primeira cena do filme, é definido muito bem o regime racial que o país vivia. Eastwood com um plano de cena rápido mostra de um lado um grupo de crianças negras, magras e com roupas sujas e rasgadas jogando futebol em um campo paupérrimo. Logo após a câmera está do outro lado da avenida e vemos um time de rugby composto apenas por brancos, bem vestidos em um campo bem construído. Mesmo local, outra realidade. Apenas alguns metros separam negros dos brancos do outro lado da rua, mas anos de injustiça e preconceito racial os distanciam.

Logo após a cena inicial, uma comitiva passa por essa avenida festejando a libertação de Nelson Mandela, um dos mais ativos e ferrenhos opositores do apartheid, e que por sua posição ficou preso durante 26 anos. Se de um lado, vemos os garotos negros que jogavam futebol festejar sua libertação, do outro, temos o time de rugby criticando a soltura de Mandela. Novamente, realidades opostas, mas que através daquele homem, passariam a conviver sem tamanha disparidade como outrora.

O velho Clint mostra que tem muita história pra contar e em Invictus, reforça mais uma vez seu excelente trabalho de direção, pois consegue tirar muito de uma história simples. O filme é focado em um mundial de rugby, que Mandela aproveitou como um pretexto para unir toda uma nação, é claro que toda a mudança da África do Sul não foi apenas fruto de um esporte, mas de diversos outros aspectos, mas é no esporte que a película se foca.

Mandela tem uma história riquíssima, que acaba tendo sempre um enfoque maior em sua resistência ao apartheid e seus anos na prisão. Clint sabiamente deixou isso um pouco de lado e mostrou os primeiros anos do líder africano na presidência e sua preocupação em reconciliar brancos e negros. Neste filme vemos a aposta de Mandela em despertar em um povo a paixão por um esporte e que através dele, seria o primeiro passo para unir a todos.

Morgan Freeman interpreta Nelson Mandela e faz jus a sua indicação de melhor ator no Oscar com discursos memoráveis e demonstrando muito bem a personalidade de Mandela com a obstinação de suas decisões e escolhas. Matt Damon, faz um excelente trabalho de construção de personagem interpretando o capitão da seleção sul-africana de rugby, François Pienaar, um homem que vê depositado nele uma grande responsabilidade, no entanto, quando em tela com Freeman, acaba sendo completamente ofuscado pelo atuação do outro.

Se engana quem pensa que Invictus é uma biografia de Nelson Mandela. O protagonista de Invictus é o povo sul-africano demonstrado através do rugby, e claro, uma pequena parcela da trajetória de vida do Grande Homem que foi Nelson Mandela. Uma pena não ter tido um impacto tão grande como merecia.

Do fundo da noite que me cobre,
Preta como o Breu de lado a lado
Agradeço a todos deuses pelo nobre
Inconquistável espírito a mim dado.

No acaso todo das circunstâncias
Não me deixei cair nem gritar
Apesar de um estouro de ânsias
Minha cabeça sangra sem curvar

Além desse lugar de tristezas e insanos
Nada se vê, só o Horror desde cedo
E ainda assim a ameaça dos anos
encontra-me e encontrar-me-á sem medo

Não importa quantas vezes desatino
nem quantas vezes a vida me espalma
Sou o mestre e senhor do meu destino:
Sou o capitão de minha alma.

– William Henley