Crítica | Ironweed

Onde não estamos é que estamos bem. Já não estamos no passado, e então ele nos parece belíssimo.” – Anton Tchekhov.

Se Hector Babenco, cineasta argentino falecido em 2016, pudesse abraçar forte o famoso escritor russo por essa citação que tão bem resume sua obra por inteira, de cabo a rabo, com certeza o faria. Babenco teve o dom, o vício e a necessidade de criar uma máquina do tempo através de seus filmes, suas alegorias ainda que atemporais só pra (re)alcançar e respirar mais uma vez idos, costumes e ideais que traduzem o DNA da sua perspectiva tanto sobre a vida, quanto a respeito de uma arte que se debruçou para fazer história dentro dela, pulsando uma visão nostálgica que jamais conseguiu deixar de sê-la exatamente como é, mesmo em seu melhor filme, Pixote, quando encena um de seus virtuosos pretéritos “fictícios” filmados sob os olhos de um detalhista, 100% desinteressado em fatores futuristas. Se o ontem já está pronto pra uso, é o ontem que Babenco fazia questão de usufruir – e lindamente, como poucos.

Sendo assim, não é de se espantar o apreço de Babenco para com uma história igual a de Ironweed, seu primeiro filme totalmente rodado em Hollywood e contando com um elenco de peso, após os enormes e inéditos sucessos de O Beijo da Mulher Aranha e o já mencionado Pixote; ambos chegaram ao Oscar e ao Globo de Ouro, chamando bastante atenção dos mandachuvas americanos e lhe abrindo portas para trabalhar com Meryl Streep, Jack Nicholson e o grande compositor John Morris (Dirty Dancing), adaptando o famoso e homônimo livro de William Kennedy sobre um casal extremamente complicado, alcoólatra e agressivo, que não consegue não reviver todas as agruras e cicatrizes que o passado lhes reserva, ainda hoje, como se o tempo para eles nunca tivesse passado desde então, servido senão para aprofundar as marcas que um deixa deliberadamente no outro, sem dó nem piedade.

Temos aqui um grande embate de uma consciência masculina e os mortos que carrega, e uma essência feminina que nunca soube lidar muito bem com a própria sensibilidade mais sofisticada do ser. Ambos se cortam entre palavras e olhares, gestos e intenções, encontrando na música e na bebida para reviver seus fantasmas (literalmente) a chance de sentir a nostalgia lenitiva a realidade dos fatos. É como se Babenco, novamente, citasse Anton Tchekhov na prática, entre relações traumatizantes de um casal nada saudável, e ainda assim irresistível de se ver. Quando a Helen de Streep entra num bar imundo, e com roupas tão fétidas quanto o ambiente, e se depara com o Francis de Nicholson, homem rude que cava sepulturas para ganhar míseros dólares e sobreviver, duas lendas do cinema mundial passam a mostrar a razão crítica de merecerem tal prestígio. Babenco deixa as brilhar, sim, mas não permite que esse duelo de atuações deixe a história de lado, levantando outras questões: Até que ponto um cidadão consegue viver seu passado sem deixar isso atrapalhar seu futuro?

Tanto Helen quanto Francis e seus colegas de bebedeira nunca tiveram essa oportunidade, fadados a sarjeta, a não saber aonde dormir na noite seguinte. Fantasmas vivos esperando a hora do último drink, do último prazer, já que nada mais consegue o mesmo efeito no mundo. Nesse afogar das mágoas e na impossibilidade total de se encarar o hoje e fazer algo de produtivo com ele, Ironweed representa a mais difícil das relações nostálgicas que Babenco já filmou, com zero glamour, zero resistência e zero esperanças guiando seus atores. Contudo, mesmo com um elenco de ponta, e um design de produção caprichado, o cineasta argentino radicalizado no Brasil fez um filme reflexivo, mas nada marcante, e até redundante para toda a filmografia de Babenco já baseada inteiramente nessas forças que movem os pretéritos latentes de cada um. Esse talvez seja o grande problema, aqui: Para um filme que cria e propõe asas para o passado, ele corre o grave risco de não conseguir decolar muito bem em nossa memória.

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