Crítica | O Jardim das Aflições

O filme de Josias Teófilo passou por muitas polêmicas desde que foi anunciado, tanto em relação a sua execução no Brasil, onde ocorreram boicotes em festivais e outras exibições. O começo de O Jardim das Aflições é acompanhado de uma música instrumental leve, da Orquestra Sinfônica de Gothenburg, e da uma fotografia composta por um belo olhar de Daniel Aragão, sobre o filósofo, astrólogo e guru da nova direita brasileira, Olavo de Carvalho.

A fala inicial é um monólogo a respeito do próprio livro, homônimo deste documentário. Em um dos cômodos, atrás da porta se nota uma plaquinha engraçada com Ronald Reagan imitando Tio Sam, em uma frase que se fosse traduzida, seria algo como “precisamos de você para lutar contra o socialismo”. É curioso como até esse momento do filme, não se toca em absolutamente nenhum assunto relacionado a política, e sim as trivialidades da vida.

O filme se vale de uma entrevista atual e certeira adentrando a intimidade do biografado, ainda que haja também o uso de entrevistas antigas com Olavo, como por exemplo um entrevista realizada por Pedro Bial, com ambos mais jovens. Tais momentos de perguntas e respostas servem para introduzir um ponto que Carvalho vive defendendo, a ideia de que por meio do “marxismo cultural” a esquerda se fortaleceu nos anos oitenta/noventa e tenta implementar por meio de escolas, universidades e meios de comunicação um ideal socialista velado, tendo de certa forma, o Partido dos Trabalhadores como um dos pontos nevrálgicos dessa tática. Toda essa fala é acompanha de tomadas aéreas sobre a cidade de Brasilia, com palavras que igualam o PT, Foro de São Paulo, esquerda e a roubalheira como frutos da mesma origem. Para o entrevistado, o impeachment de Dilma Rousseff é apenas um prêmio de consolação para os anseios do povo de verdade, já que o ideal era a extinção do PT.

Teófilo tenta dar substância e conteúdo para o seu biografado, mostrando frases de efeito, como por exemplo que nenhum comunista leu tanto Marx, Engels, Lênin, Stalin e Trostky, quanto ele, e que se de fato a esquerda lesse deixaria essa ideologia de lado. Por mais que haja uma biblioteca enorme atrás de si, a aparência em torno do discurso falado no filme é mais fundamentada em sofismas do que um pensamento real formado por alguém que pretensamente estudou tudo aquilo. É difícil ler e ouvir tudo isso e não pensar que se trata de um personagem infantiloide que esbraveja xingamentos juvenis e opiniões baseadas em achismos ou mesmo leituras equivocadas.

Olavo tem retórica, indiscutivelmente. Ele sabe falar de um jeito sedutor para quem concorda minimamente com parte das suas idéias polêmicas. Da parte de seus alunos, há a defesa que sua a postura nas redes sociais e veículos públicos é tão somente uma forma irônica de tratar o povo, ou senão, a culpa são das pessoas que não tem intelectualidade para acompanhar a velocidade e complexidade de seu pensamento. O mergulho que Teófilo dá em O Jardim das Aflições se dá na tentativa de ratificar essa fala, mas o que se vê é uma tentativa de dourar a pílula, tentando tornar seu biografo uma figura infalível e quase messiânica – algo não muito distante do que costumam praticar alguns setores da esquerda .

Sem dúvida alguma a melhor coisa do filme é a composição visual que Aragão pensou, conseguindo resgatar belas imagens dos cenários e ações de Carvalho, mas mesmo isso não salva o todo, aparentando ser como a maquiagem dos cadáveres, que tencionam tornar belo o que já não está em suas melhores condições. Olavo de Carvalho não é como um morto, mas seu discurso também passa longe de ser a profunda filosofia que o roteiro e direção querem pintar aqui.

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