Crítica | Jauja

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Quando o exercício filosófico brota de uma realidade bruta, a favor e servindo a uma mitologia moldada em delírio, instintos, carma e a coragem natural que move o espírito de um pai, no caso, em busca da filha e seu sonho de vida, e principalmente, à procura de seu papel no mundo. Uma viagem pelo subconsciente insondável e imprevisível de um homem, de psiquê por vezes violenta e melancólica, tal qual a nossa, transvestida em forma de deserto e danação. Bem-vindo a Jauja, um cenário sem fim como base a infinitas expedições e interpretações.

O diretor Lisandro Alonso  externiza esse subconsciente, essa parte sombria e tão pouco inexplorada de cada um de nós, na dúvida de que tudo ali, na tela à nossa frente, não passa de uma fantasia moldada pela ambição humana e a poesia visual exuberante em cada plano (poesia assinada pela energia dos planos, e do tempo, desses planos em cena), partes de um quebra-cabeça ambíguo e questionável, de propósito, para uma definição única. A tanto, há uma trama bem simples para os que gostam de racionalizar as coisas: no meio de uma expedição a fim de encontrar o mítico destino homônimo nunca antes alcançado, espécie de terra prometida, pai e filha, carne do general Gunnar, são separados sem motivo aparente. Aliás, é a falta de esclarecimentos em qualquer leitura de qualquer camada da trama, junto à poesia já mencionada, que torna Jauja um desses enigmas visuais cuja narrativa vale mais que as (impossíveis) conclusões.

Nós, a certo ponto, percebemos assumir o papel de Gunnar (Viggo Mortensen), ou seja, nos tornamos os exploradores da terra que este vaga, sem fim, visando miragens e espectros na pradaria argentina sob o sol escaldante, sob a luz das estrelas; talvez pedaços de si mesmo, alucinações que fazem parte do mero ser. É claro que nesta circunstância, se para ele o que vale são as descobertas, a nós o que vale é o caminho. Ao público, a ficha cai aos poucos, inconscientemente, muito antes de percebermos, na experiência coletiva de uma sala de cinema, quando já fomos engolidos pela escala transcendental do filme. E se a Gunnar é concebido o desprendimento forçado de sua filha, o próprio filme nega e se separa da história, afinal um filme é sempre maior que as palavras – incluindo as desta crítica, feito que Jauja alcança desde a estranha atração que sentimos, no início da projeção, na tela de formato 4:3, achatando um universo para que seja a nossa tarefa expandi-lo, engrandecê-lo, com a imaginação de quem vê e sente o poder do audiovisual.

De Platão: “Tente mover o mundo – o primeiro passo será mover a si mesmo.” Mover-se num universo que nos atrai e repele, este achatado pelas dimensões da câmera, e que não pode, nem passa despercebido por quem nele embarca de cabeça. Uma trilha banhada pela luz e a escuridão que encontram os seres jogados à própria sorte. Um filme sobre dimensões internas, exteriorizadas nas veias ora da representação teatral ao ar livre, ora de uma ficção permeada em metáforas e signos e elementos além de nossa vã filosofia casual. Filme livre, de peito e mente aberta num ângulo de 360º que nada condiz com sua forma de exibição, mas cuja abertura crítica não encontra limites junto ao término da sessão, sendo então o começo de uma reflexão bem-vinda. Filme que pede nossa atenção e lucidez para nos guiar por um espaço-tempo tão encantador, quanto particular. Filme filho de Leone, Bresson, Resnais e tantos outros. Jauja é uma aula de educação artística, obra platônica oriunda da atração coletiva e individual pelas curvas, e veredas, do desconhecido.