Crítica | Jersey Boys: Em Busca da Música (1)

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Quem acha que Frankie Valli se resume a “La Bamba” e “Donna” vai se surpreender ao descobrir que há mais sobre ele do que “sonha nossa vã filosofia”. Produzido por Valli e Bob Gaudio, o filme, baseado no musical de mesmo nome (vencedor do Tony Award) e no livro Jersey Boys: The Story of Frankie Valli and the Four Seasons de David Cote, conta a história da carreira de Valli e do grupo Four Seasons – Frankie Valli (John Lloyd Young) como vocalista principal; Tommy DeVito (Vincent Piazza), guitarra e voz; Nick Massi (Michael Lomenda), baixo e voz; Bob Gaudio (Erich Bergen), piano e voz.

O espectador é apresentado a Francesco Castellucio, um aspirante a barbeiro, dono de uma voz em falsete bem possante, que viria a adotar Frankie Valli como nome artístico. Depois de três anos, Clint Eastwood volta à direção contando a trajetória do quarteto, desde o início de sua ascensão – após o sucesso de “Sherry”, em 1962 – até sua dissolução nos anos 70. Nesse período, o grupo passa por situações difíceis, saias justas, discussões, problemas financeiros, enquanto se apresenta por todo o país, desfrutando da fama adquirida. Sem grandes surpresas, pois é a história de 90% dos grupos artísticos bem-sucedidos.

Como vários artistas da época, conseguem abandonar a provável carreira de gangsteres devido a seus dotes musicais – sem deixar de recorrer à famiglia nos momentos de aperto. A bênção do padrinho Angelo “Gyp” DeCarlo (Christopher Walken), um mafioso que parece ter superpoderes, já que consegue resolver qualquer problema, fã da voz do jovem Frankie, garante que os jovens coloquem seus talentos em prática. É sob os auspícios da máfia e de seu código – honra, respeito, fidelidade a seu benfeitor – que o grupo se estrutura. E é justamente pelo desrespeito a esse código que o grupo se desfaz anos mais tarde.

Mesmo que a história seja baseada em fatos reais “de verdade”, tanto a contada no musical quanto a vista no filme, o que se vê é a visão do roteirista e do diretor sobre o que aconteceu. E, no caso da película, uma visão bem convencional, sem grandes arroubos criativos, seja em termos de roteiro, fotografia, montagem, direção. Há o rompimento da “quarta parede”, optando por fazer com que os personagens contem a história ao espectador. Mas não há nada de tão revolucionário nisso. Scorsese se utilizou disso muito bem em Os Bons Companheiros. É uma boa solução narrativa, pois evita o uso extensivo da narração em off, que possivelmente seria tediosa, além de “puxar” o espectador para dentro da história, tornando-o um ouvinte-observador – ou observador-ouvinte.

E falando em ouvir, aos amantes de música, especialmente de canções dos anos 60, com seus grupos vocais e rocks dançantes, a diversão está garantida. Há ótimos trechos musicais, daqueles de acompanhar o ritmo com o pé e sussurrar a música junto com os cantores. Destaque para a sequência final, com um número digno dos melhores musicais, homenageando o gênero da melhor forma possível.

Clint nos deixou mal acostumados, presentando o público com Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Gran Torino, e até mesmo com o mais recente J. Edgar. É praticamente inevitável ver um filme dirigido por ele sem um pingo de expectativa. E provavelmente parte dessa expectativa é a responsável por fazer Jersey Boys parecer mais morno do que realmente é.

Texto de autoria de Cristine Tellier.