Cinema

[Crítica] Jessabelle: O Passado Nunca Morre

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Contando com uma história de mistério, e uma edição que em virtude do estilo deixa a fita ainda mais confusa, Jessabelle: O Passado Nunca Morre mostra a personagem-título (Sarah Snook, de O Predestinado) tentando se adequar a um novo estilo de vida, como cadeirante, após um trágico acidente, reunindo alguns dos temas mais comuns de contos e romances de terror. A impossibilidade de se locomover constitui-se como um paradigma comum, além de inserir Jessie em uma posição desagradável de fragilidade.

A mudança forçada para a casa de seu pai faz a protagonista ter assombros noturnos se manifestando, em um primeiro momento, de maneira bastante tímida, em cenas curtas nas quais um filtro esverdeado prevalece, curiosamente aludindo a tons escuros, que não o preto, exatamente para referenciar a deficiência passageira que a paciente sofre.

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Em um dos momentos de solidão, Jessie acidentalmente encontra uma fita de vídeo, filmada no final dos anos 1990, põe-a para rodar e vê sua falecida mãe. Assistir ao filme se mostrou tão acintoso que seu perturbado pai, Leon (David Andrews), lhe dá uma bronca, proibindo-a de mexer em quaisquer lembranças da mulher. Isso faz com que Jessie finalmente tenha um sentimento real após o acidente, já que, até então, não possuía qualquer expressão, nem mesmo de tristeza ou medo. Como uma anestesia que lhe foi dada após o infortúnio.

A experiência de Kevin Greutert como diretor conta como um auxílio à aura de terror prevista no roteiro de Robert Ben Garant, ainda que a união de ambos seja bastante improvável, já que a filmografia pregressa dos dois cineastas muito se diferenciava: Greutert dirigiu os dois últimos filmes da série Jogos Mortais – obras que explicam sua predileção por contar histórias no estilo home video – enquanto Garant roteirizava produções de comédia ácida, que guardam vagas semelhanças com partes essenciais do texto assustador de Jessabelle.

As circunstâncias atemorizantes envolvem azares comuns, como os ligados a superstições tradicionais, como a quebra de espelho, solidão forçada e eventuais aparições de figuras noturnas, que ora são encaradas como delírio do álcool, ora como objetos do sonho. O que torna irritante a fita é a série de coincidências que formam o cotidiano da protagonista, permitindo assim que a paranoia tome conta de sua mente e torne conveniente a trama de espanto.

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A inteligência do argumento está em destacar a duplicidade de alma através do objeto que cerca a personagem principal. O cuidado em revelar aos poucos a trama vai desde momentos óbvios, como a brincadeira da alcunha de Jessabelle com a figura bíblica da rainha pagã Jezabel – que, segundo os escritos, trouxe uma grande parcela de paganismo à tribo israelita – até indícios de sacrifícios humanos, com investigações da parte de seu amigo de infância (e posterior capacho) Preston (Mark Webber), que também se vê envolvido pela entidade que persegue a moça.

Os momentos finais são demasiadamente explícitos, o que pesa contra o suspense que deveria permear o filme. A exploração dos temas, realizada de modo tão direto nos últimos momentos, condiz com todo o caráter sensacionalista que o filme mostrou, uma crueldade dentro das ilusões/visões imerecida para os personagens que sofrem tais destinos, evocando tradições religiosas bastante antigas. Dessa forma, o uso dessa temática mostra que a justiça normalmente se introduz através de sacrifícios de inocentes, em tramas de vingança que não necessariamente buscam justiça, apesar de aludir a isso em algum nível. Jessabelle consegue ter momentos bons o suficiente para se separar da patuleia comum dos filmes de terror atuais.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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