Crítica | Jesus de Nazaré: O Filho de Deus

Lançado na época dos feriados pascais a fim de angariar algum público durante as folgas religiosas, Jesus de Nazaré: O Filho de Deus é um filme espanhol, dirigido por Rafa Lara, que diz começar pelo ano um depois de Cristo, embora a gênese de sua história seja no ano da morte do Cristo. O primeiro cenário é um castelo, que tem uma legenda bem grande afirmando ser o Palácio de Caifás, um dos líderes religiosos judaicos, descrito no filme como servo do governo romano, ajudando o domínio europeu que é erguido com mão de ferro.

O primeiro dos aspectos discutíveis do filme é uma narração bastante intrusiva, que dita todas as emoções que o espectador vai sentir, sem permitir que o público tire suas próprias conclusões, pouco importando se atuações, roteiro e atmosfera do filme. A questão é que ao se assistir um pouco do desempenho dos atores, entende-se a escolha por esse artifício, já que o desempenho do elenco não funciona bem, talvez por conta do roteiro confuso, com passagens de tempo muito mal encaixadas, fortalecendo um formato de narrativa por contos.

Outra questão complicada é a atmosfera, que é pouco ou nada criada aqui. As locações, em meio ao deserto servem bem aos subúrbios das cidades de Israel ou aos lugares em que Jesus pratica seus bons atos, mas em alguns dos seus milagres ou no momento próximo de sua crucificação se nota as dificuldades orçamentárias. Na multiplicação de pães e peixes, o Jesus de Júlian Gil põe um pano sobre a cesta de alimentos, depois a levanta, e se percebe um corte mal feito, gritante quando se trata de um filme para o cinema, e na via crúcis, momento emocionante, se nota que os capacetes dos soldados foram totalmente improvisados. Há peças de igrejas católico-evangélicas que fazem isso melhor.

Gil não parece ser um mal ator, mas seu Jesus é sem carisma e sem beleza, não acompanha o visual histórico correto e nem consegue ser uma versão mais eurocentrista, como em Jesus de Nazaré, de Franco Zefirelli, ou Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Pior, na cena em que se exige dele, em um momento de ira ao se deparar com o consumismo que tomou o templo de Deus, o ator sequer consegue parecer irritado ou ameaçador, e para piorar, a câmera ainda passeia pelo cenário, e tenta pegar ângulos mais alternativos, numa tentativa de direção moderna, mas que simplesmente não funciona.

Nenhum dos apóstolos se destaca, nem Pedro ou Judas. Há uma tentativa de dar importância aos papéis de Caifás e João Batista, mas eles também não sobressaem, nem mesmo Sergio Marone, ator brasileiro que interpreta Pôncio Pilatos consegue ter algum destaque – curiosamente, a cena mais simbólica e emblemática ao se lavar as mãos é feita no escuro, em secreto, longe dos olhos do povo e do espectador.

A maioria dos diálogos é artificial, com frases de efeitos que sequer combinam com uma adaptação bíblica, assim como os momentos que deveriam ocorrer ações sobrenaturais. O encontro de Moisés, Elias e Jesus parece tirado de um episódio barato de The Walking Dead (vazio de qualidade visual) e o diabo é claramente uma cópia do que Gibson já havia feito em Paixão de Cristo. Da parte narrativa, Jesus induz o traidor a escolher o caminho do mal.

Jesus de Nazaré: O Filho de Deus é um filme complicado, caça-níquel que não consegue ter pompa sequer para ser um bom filme religioso. Em seu começo a narração irrita, mas fato é que sem ela, talvez boa parte de sua trama não fosse entendida, e a escolha pela não linearidade se mostrou uma saída tola, tão fraca quanto o restante do filme.

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