Cinema

Crítica | Jogada Decisiva

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Em 1998 Spike Lee unido ao estúdio Touchstone trouxe à luz uma obra que juntava uma temática que ele estava acostumado a abordar: a emancipação do negro americano junto às dificuldades de se ver livre para fazer o que quer, e o basquetebol, esporte que sempre amou do qual é apaixonado e devoto. Antes mesmo de começar seu drama ele passeia pelas quadras do país, especialmente em lugares carentes, mostrando meninos, meninas, homens e mulheres jogando basquete, em uma apresentação linda, acompanhada da bela música de Aaron Copland, em um exercício de slow motion que emula bem os momentos épicos de Sam Peckinpah.

A história mostra Jesus, personagem de Ray Allen que se tornaria profissional da NBA, um jovem garoto que no colegial já tem talento o suficiente para chamar a atenção de olheiros das ligas profissionais. Aparentemente o garoto está jogando seu talento fora, graças à rebeldia que seu trágico passado causou – seu pai foi preso, por assassinar sua mãe – e para convencê-lo a jogar pela universidade do estado, a Big State (uma faculdade ficcional), Jake Shuttlesworth é liberado em condicional, tendo uma semana para convencer o filho, mesmo não tendo qualquer relação com ele desde que foi para a prisão.

O modo como Lee conta sua história passa por ângulos obtusos, a câmera passeia pelos cenários e registra ângulos bem improváveis de seu elenco, em especial quando eles se exercitam, e para isso, não é nem preciso que Allen ou Denzel Washington (que faz Jake) estejam em tela. Essas sensações, sejam na figura do velho ou do novo Shuttlesworth, passam pela música não incidental do Public Enemy, que permeiam o filme inteiro, sobretudo nas disputas e nos créditos finais. Aliás, o modo como o realizador registra o jogo nas quadras de rua assusta. Não só pela poesia das imagens, que em alguns pontos faz tudo parecer um balé no asfalto, como pela plasticidade nos detalhes e closes nos jogadores. Além disso, o cineasta brinca com formatos, evoluindo o quadro de misturar momentos em estilo documentários com quebras da quarta parede, numa espécie de mescla entre seus filmes mais jornalísticos como Kobe Doin' Work e seu longa de estréia, Ela Quer Tudo.

Toda a história familiar é bem desenrolada, seus detalhes são escrutinados de maneira positiva em determinado ponto da trama, mas fora esse artifício, o roteiro se desenrola bem no que tange o emocional. Mesmo as questões primordiais do filme, como a rejeição natural que Jesus tem por seu pai são bem desafiadas, já que Jake é uma pessoa fácil de gostar, tão repleto de carisma que se torna irresistível para os que o cercam. Os fantasmas do passado são pesados demais parar serem ignorados.

As atuações dos personagens de apoio são boas, com destaque positivo para Milla Jojovich, que vive a garota de programa Dakota, e Rosario Dawson, que faz Lala, um dos interesses românticos do rapaz. As descrições dos momentos vividos por essas personagens aparecem como cenas avulsas, coladas em meio a trama do roteiro de Lee como esquetes separadas da trama central, permitindo assim aos intérpretes adicionarem camadas e mais camadas à atuação, fazendo dessa Coney Island palco para um teatro de sonhos e decepções, algumas inerentes à vida comum e outras que fogem completamente do ordinário.

No apartamento barato que aluga, Jake gasta seu tempo entre receber visita dos policiais corruptos que o pressionam e os treinamentos de domínio com a velha e surrada bola que tem, consistindo basicamente dele jogando a mesma contra parede para afiar seus reflexos de novo, como se precisasse, como se não tivesse mentalmente todas as formas de  ir em direção à cesta, ou de dominar em jogo em suas mãos. O artifício que emprega visa isolar os próprios ouvidos do barulho incômodo do quarto ao lado, e ajuda ele a relaxar para finalmente lidar com seus demônios.

Todo o número envolvendo a apresentação da Tech University (outra universidade fictícia) é por si só surreal. Desde a apresentação com os veteranos, que são recebidos por dúzias de garotas brancas lindas e dadas, até a conversa com o bizarro treinador Billy Sunday de John Turturro, que brinca entre a sedução do inocente estudante e as rezas dadas à figura mítica e messiânica de Cristo, que estão presentes no nome de batismo do aspirante a jogador. Lee acerta demais ao mostrar o ambiente sedutor e errático das universidades com possíveis jogadores, não só no cunho sexual, como também no aliciamento, e nisso, nem o antigo Blue Chips de William Friedkin ou o mais recente Amador acertam tanto quanto na jornada que Jesus tem.

Allen tem uma apresentação digna. Até fora de quadra ele atua consideravelmente bem, consegue apresentar uma face dramática intensa e forte quando contracena com a Lala de Dawson, além de fazer um bom dueto com a figura do mentor inesperado. O trágico e deprimido homem que tem pouca consideração sua, transita pelas ruas sujas de Coney Island com roupas de treino de basquete basicamente por não ter nada, a não ser o jogo que tentou ministrar ao seu filho. Algum sucesso ele teve, afinal, já que a grande escolha de Jesus teve a ver com o conselho de seu progenitor.

O um a um que pai e filho jogam é uma disputa ideológica e familiar pesada, carregada de sentimentos e significados. A carga emotiva certamente acerta em cheio quem visualiza a história, como um chute de três pontos bem dado, na final de um campeonato, semelhantes aos que Allen fez durante sua boa carreira na universidade e na NBA. Mais do que isso, é a prova de que o homem pode evoluir, pode treinar e se aprimorar para melhorar não só a si, mas também os seus. Jake se vê numa posição de ter de alguma forma de liberdade, e os momentos tensos e imediatos antes dos créditos finais brincam com as barreiras metafísicas, dando a pai e filho uma relação mais forte que a realidade tangente.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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