Crítica | John Wick 3: Parabellum

Quando fez o dublê de Keanu Reeves em Matrix, Chad Stahelski não parecia que se transformaria no criativo e competente diretor capaz de reproduzir em tela toda a magia dos quadrinhos de ação e dos animes shonen. Após os eventos de John Wick 2, o protagonista surge mancando, tropeçando em cima dos próprios erros e tendo de conviver com as escolhas que fez.

Evidente que John Wick 3: Parabellum trataria logo de dar um destino para o cachorro do protagonista, que retorna ao Hotel Continental, para ficar com o porteiro, afim de deixar a ação correr, ainda que durante o filme cães sejam utilizados como armas de guerra. A expressão que serve de subtítulo, está presente na frase do latim, bem famosa, si vis pacem, para bellum, que em português ficaria se queres a paz, prepara-te para a guerra, e  quase todas as sequências de ação transbordam esse estado belicoso.

Em De Volta ao Jogo, Stahelski e David Leitch homenagearam os quadrinhos de ação, e neste, aparentemente há uma ideia de reverenciar os famosos games Beat’em Up, como Street of Rage, Double Dragon e Capitão Comando. A tentativa de John Wick em manter-se vivo passa por cenários distintos, seguidos por outros cenários ainda mais estranhos onde alguma luta muito bem coreografada e bizarra ocorre, sempre com um pé na realidade, mas com um tanto de fantasia voltada para a violência. A atmosfera diferenciada da franquia continua lançando mão em dois aspectos que a tornam diferente de todo o cinema de ação. O primeiro, são os golpes secos, que fazem com que os duelos de faca ou de revólveres à queima-roupa façam sentido dentro da lógica de escapismo hiper-realista, enquanto a outra é o som, que abdica de uma trilha sonora manipuladora para deixar os socos mais vivos em tela, aumentando a sensação de claustrofobia. O público é convidado a sentir os mesmos apertos que o herói, e essa imersão só aumenta ao longo da trilogia.

O filme dá poucos respiros, e a ação é frenética, ainda que em alguns pontos soe cansativa. As partes que falam sobre o passado e nacionalidade do protagonista até acrescentam alguns aspectos que despertavam curiosidade, mas a realidade é que o mistério sobre seu passado era um aspecto interessante na composição do personagem. No entanto, o mais polêmico no filme é a disputa que reside na motivação do perseguido, variando entre uma jornada de redenção e pretexto para que ele implore por sua vida.

Esta terceira parte parece mais preocupada em expandir o rico universo dos caçadores de recompensas modernos e assassinos de aluguel do que propriamente fechar o ciclo de Baba Yaga, e isso faz as tramas ligadas ao destino de Wick ficarem em segundo plano. Ao menos, há uma participação maravilhosa de Mark Dacascos, que há muito tempo não fazia um filme relevante (ou minimamente sério), seu resgate é quase tão emocionante quanto o que James Gunn fez com Michael Rooker em Guardiões das Galáxias 2, ainda que seu significado seja outro.

É impossível não perder o fôlego com a sequência final, que ainda arruma tempo para fazer homenagens aos filmes de Bruce Lee, em especial Jogo da Morte, e mesmo esse sendo um jogo de peões se matando pelos interesses de magnatas poderosos e incapazes de qualquer esforço, é um belo capítulo dentro da trajetória do assassino que Reeves vive, abrindo ainda novas possibilidades para a continuidade da franquia.

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