Cinema

Crítica | Joias Brutas

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Joias Brutas é o novo filme de Benny e Josh Safdie, e tem uma abertura bem ao estilo do longa de David Fincher, Clube da Luta  "poetiza" sobre uma colonoscopia, passeando com a câmera pela parte interna do aparelho digestivo de Adam Sandler, que faz o Howard Ratner, um vendedor de joias cuja moral é duvidosa, que gasta as horas de seus dias entre apostas e outros pecados.

A musica instrumental vai do prólogo até os primeiros momentos de normalidade e fúria dele. Antes até de mostrar o exame, é visto um cenário árido, em um trabalho de mineração na Etiópia em 2010, variando bem entre um lugar pobre e com condições insalubres de vida, capaz de gerar riquezas como a tal joia que cairia nas mãos de Howard e do ex-astro da NBA (na época, jogando pelo Boston Celtics) Kevin Garnett. Sem qualquer panfletarismo, os irmãos mostram a exploração do povo negro e a mentalidade colonizadora dos estadunidenses, na historia suja que os realizadores pensaram, onde o pior do ser humano é vazado.

Ratner é deplorável, o papel foi pensado para Sandler, que mais de dez anos antes recusou o mesmo. O roteiro passou por muitas versões e cortes. Howard sofre o diabo, é enquadrado pelos que tem dívida consigo, penhora bens de clientes, quase morre, sua vida é agitadíssima. Há alguns momentos que lembram Bom Comportamento, filme anterior da dupla, especialmente nos momentos de desespero. O mergulho na parte escura da alma dos homens é mostrado de uma maneira visceral e pesada

A maior parte do tempo o que impera é gritaria e desespero, e isso passa obviamente pela personalidade repelente de qualquer aspecto positivo que Howard tem, o sujeito consegue ter pessoas que o querem bem, ao passo de que não há ninguém ali que não tenha sido destratado ao menos uma vez por ele, ou que tenha sido tapeado (ou ao menos tentado) por suas mentiras e dissimulações. Sandler ultrapassa a barreira do aceitável para um anti heroi, compõe um papel execrável até dentro desse arquétipo e mesmo seus parentes sofrem com a sua desumanidade.

Garnett desempenha bem seu papel, ainda que ali seja apenas uma versão de si um bocado mais vaidosa e crédula. A forma como o roteiro amarra seu esforço e desempenho contra o Philadelphia 76ers com o potencial da pedra que veio da Etiopia é incrível, porque além de contar com os préstimos do ex jogador, ainda há um sem numero de situações limites que se encavalam e que contam com a entrega não só dos astros (Garnett e Sandler) mas de todo o elenco de atores iniciantes e figurantes.

O fato de Howard ser tão asqueroso quanto boa parte de seus papéis nos filmes da Happy Madison faz toda a odisseia de fracassos fazer mais sentido, ainda que este sujeito não contenha o carisma dos heróis comuns ao humorista e ator. Não há magnetismo pessoal como nos protagonistas de O Paizão, Click ou Como Se Fosse a Primeira Vez, e sim algo repelente, nem há fantasia de redenção ou reflexão sobre seus atos.  Howard esgotou todas as chances, queimou todas suas fontes e seus possíveis credores, não há ninguém que possa dar a chance dele ser o idiota útil, que no fundo é uma boa pessoa apesar do baixo caráter  pois, até porque nem se mergulhar fundo em sua alma, se acha algo bom em suas intenções.

Mesmo com uma montanha russa de emoções, dissabores e desespero, o destino ainda sorri para o anti herói da jornada, há alguma fortuna, como se o acaso tivesse afeição pelos idiotas e dignos de pena. O que se vê no final é algo inacreditável, como um mini thriller dentro de um longa bem diferente disso, Joias Brutas captura bem como a vida funciona, entre tristezas e alegrias, é voraz e prima por uma verdade visceral, não só por conta de ter um conjunto de atores iniciantes  mas também pela entrega dos veteranos, tudo com uma intensidade enorme e sem condições de parar em qualquer momento.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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