Crítica | Juventude Transviada

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Nicholas Ray é um nome tão importante no cinema moderno que Jean-Luc Godard disse uma vez que “o cinema é Nicholas Ray” e Wim Wenders acompanhou seus últimos dias e transformou-os no excelente Um Filme Para Nick. Não é a toa que seu filme mais famoso revolucionou o cinema americano e transformou James Dean em um ícone.

Juventude Transviada começa com Dean deitado no chão, bêbado, brincando com um macaquinho de dar corda. Ele em seguida deita o boneco, o cobre com um pedaço de papel, como se o pusesse para dormir, e deita ao seu lado. A cena é estranha, incômoda e diferente de tudo que o cinema americano tinha feito até então. Essa sequência inicial, uma espécie de prólogo antes do início real do filme, também marca o que será o personagem de Dean: um misto de fragilidade, insolência e estranheza.

A trama apresenta uma série de adolescentes de subúrbio, todos eles com casa, família e uma situação confortável. No entanto, há uma sensação de desconforto que passa pelos personagens do filme e mostra de forma sutil a parcela de trágico e dolorido que existe na juventude média americana.

Esses adolescentes buscam um lugar, uma espécie de entendimento e conforto que não encontram em casa: Jim se divide entre uma mãe histérica e um pai extremamente passivo; Judy entre uma mãe apática e um pai que a repele porque já é “muito crescida”; e os pais de Plato, milionários, estão sempre viajando. Ray coloca seus personagens em um lugar delicado: já são grandes o suficiente para terem consciência das fraquezas de seus pais (e no caso de Judy para despertar um tipo de desejo que deve ser afastado), mas incapazes ainda de romper com a estrutura familiar.

Nicholas Ray é o primeiro cineasta a olhar de perto a adolescência e, mais que isso, a leva-la a sério suficiente para lhe dar ares de tragédia. Desde o início, quando ouvimos na delegacia que Plato atirou em cachorrinhos, sabemos que há algo de incontrolável e violento nele. Buzz, o namorado “popular” de Judy, morre tentando provar que é mais corajoso que Jim: provar algum valor, ser aceito, é algo tão importante que vidas são postas em risco. Ao mesmo tempo a morte de Buzz serve para acentuar o rompimento dos adolescentes com seus pais: eles habitam em um mundo perigoso, onde tragédias ocorrem, mas seus pais mal sabem, eles estão definitivamente sozinhos.

Juventude Transviada toma o adolescente como símbolo daquele que não encontra lugar na sociedade, que não está em nenhuma das caixas delimitadas e explora com sensibilidade a tensão entre querer permanecer à margem e querer se encontrar. Esse olhar para personagens desajustados ou incompreendidos é parte do que torna o filme tão inovador e um elemento que acompanha todo o cinema independente americano e o cinema francês da década de 60.

Com esse filme Nicholas Ray criou um ícone e mudou o cinema, ao mesmo tempo que fez um clássico que, embora com alguns elementos datados, ainda diz respeito a uma certa experiência universal.

Texto de autoria de Isadora Sinay.