[Crítica] Kóblic

Novo filme dirigido por Sebastián Borensztein – de Um Conto ChinêsKoblic mistura drama e ação, contando com Ricardo Darín como o protagonista da produção. O premiado ator vive o personagem título do filme, um ex-capitão das forças armadas que coordena operações aéreas conhecidas como voos da morte, onde se eliminam os inimigos da ditadura militar argentina nos anos setenta, ao jogar os corpos dos opositores do governo diretamente ao mar.

As primeiras cenas já dão vazão ao talento de Darín, mostrando-o em discussões com pessoas próximas, sendo esse sempre resignado apesar da alta patente que possuía e do livre trânsito entre os poderosos da sua pátria. Os motivos que o fazem sentir assim são explicitados em cenas com outros personagens, onde um jovem alistado trata com uma das maiores figuras de autoridade do filme, chamado Velarde, interpretado por Oscar Martínez. O rapaz, de certa forma, representa uma versão mais nova de Koblic, mostrando que o processo de lavagem cerebral começava desde cedo, com muita pressão psicológica, abuso de autoridade e assédio moral, ajudando a formar nos colaboradores uma cabeça mais obediente e facilmente manipulável.

As cenas de Velarde com Luiz são normalmente muito expositivas, atrapalhando um pouco as conclusões do público, que acaba tendo toda a questão de background muito mastigada. No entanto, as questões envolvendo outra face da história, ainda mais a questão que envolve Nancy (Inma Cuesta), amante de Koblic, que sofre abusos físicos de seu atual cônjuge, é melhor realizada. A demonstração de um relacionamento abusivo ocorrendo tão próximo a um agente do governo é uma boa metáfora do quão hipócrita e ignorante era a lógica dos defensores da ditadura militar e de tantos outros regimes, que se preocupam em controlar o povo sem prestar a mínima atenção em suas necessidades.

A duração de Koblic é curta, com pouco mais de noventa minutos, e é econômica em questões sentimentais. A dor que o protagonista sente e a culpa por ser um herói falido é sentida somente pelas expressões do ator e pelas cenas muito bem construídas dos despejos dos flagelados, com cores escurecidas tomando o ambiente, servindo como símbolo de todo o passado negro ocorrido na Argentina. A cena final em que Koblic ruma para o horizonte é poderosa e igualmente metafórica, sendo portanto a síntese das sensações que o personagem tem dentro de si, representando também tantos colaboradores forçados de governos tirânicos, sem descuidar também da culpa própria desses mesmos entes.