Crítica | A Lei da Noite

A Lei da Noite é o novo filme de Ben Affleck no papel de diretor e roteirista. Acostumado a acertar desde que se iniciou em suas múltiplas tarefas no cinema, primeiro em Medo da Verdade, até chegar em Argo, sua obra máxima. Recém saído da cadeira de diretor de The Batman, Affleck sentiu o peso nos ombros de estar frente ambiciosos de um grande estúdio como a Warner e ao mesmo tempo se mostrar artisticamente relevante. Tal compromisso, apresentar ao estúdio o filme que dominaria o Oscar deste ano e carregar o maior fazedor de dinheiro do estúdio, Batman, Affleck demonstrou confusão e talvez cansaço. Com um prejuízo de 70 milhões de dólares e fracasso de crítica, sem prêmios, o atual Batman se encontrou com seu pequeno inferno astral.

A opção de A Lei da Noite é contar a história de um filhos de imigrantes irlandeses que foram aos EUA para “fazer a América”. Vencer na vida honestamente ou não, serem policiais, empresários, mafiosos, gangsters, ladrões comuns que não irão passar dos 40 anos. Assim, a ambição era a de fazer um revisionismo histórico das figuras incompletas e autodestrutivas que compuseram a construção dos EUA, basicamente grupos criminosos onerando imigrantes menos bem sucedidos, numa pirâmide de opressão e manipulação. Há até o mafioso do bem, tal qual Pablo Escobar foi visto em Medélin ao misturar-se como aquela figura meio homicida meio messiânica, o qual Ben Affleck veste a pele de maneira competente.

A premissa do livre-arbítrio está impregnada em nossa cultura, é base do direito penal na maioria dos países, e esta embutida no tal Sonho Americano. É tão constante quanto falha. É basicamente a crença de que qualquer pessoa pode fazer aquilo que deseja de si, não importa de onde tenha começado. Um sonho baseado na fé e no otimismo. Tal coisa, porém, infelizmente não parece existir, pois nossa capacidade de tomar as melhores decisões tem forte influência em nossa herança genética e cultural. É a velha disputa conhecida como Nature vs Nurture. É também sabido que uma boa parte de nossas ações ocorre de maneira quase automática, antes mesmo de alguma atividade cerebral que trace a estratégia e nos faça escolher tal movimento, tal fala, tal reflexo.

Então, se existe algo de muito acertado neste filme, que é sua relação com a natureza inequivocadamente errante da vida. Existe uma insensatez nos rumos que nossas trajetórias, sempre cruzadas, tomam, e aparentemente aceitar isso é parte de uma vida em paz. Não feliz, mas em paz, que aparentemente é o máximo que se pode exigir de um mundo regido pela entropia. Karma, darma, payback, “leis naturais”, “aqui se faz aqui se paga”, “uma hora a vida cobra”. Talvez sim, talvez não, só o caos é reconhecível.

Antes mesmo de montarmos nossas percepções e idealizações sobre a vida, um pacote completo nos é entregue pela cultura. Percepções do mundo traçando nossa moralidade e ética, de justiça divina e concepções sentimentais. Tudo entregue e reformulado constantemente, sem alterar seu conteúdo, para que pensemos que concluímos algo. Para que pensemos ser capazes de manipular nosso próprio destino, tomar decisões e conviver com elas. Idealizamos o sonho de sermos livres como um pássaro sem que ninguém se dê conta de que nem mesmo o pássaro é livre. Ora, ele não tem outra escolha a não ser ir de um ponto ao outro voando, piar, procriar e cuidar de seus filhotes. Não há liberdade para animal algum que esteja vivo.

Deste ponto de vista, a esperança é um dom insensato, talvez ingênuo, talvez imaturo. Uma forma de flutuar entre os devaneios da rotina literária, que nos promete expectativas e perspectivas, mesmo naquelas que se julgam viscerais e quase cruéis. Por outro lado, de acordo com A Lei da Noite, a causalidade é tão pouco rastreável que é como se não fazer sentido fosse a melhor das opções. Tão impossível prever qualquer as consequências de qualquer ação, principalmente aquelas onde tudo degringola, que buscar elucidar qual a melhor decisão e forma de agir se torna um exercício de futilidade para lustrar nosso ego que faz acreditar que somos pessoas “senhoras de nós mesmos”.

Tecnicamente bonito, mas confuso, a Lei da Noite tem momentos enfadonhos onde não nos é permitido ter real empatia com os personagens que nos são apresentados, a ponto de que quando retornam sequer conseguimos reconhecê-los. Outro problema é que, apesar das boas intenções, o texto acaba utilizando estereótipos étnicos para apoiar suas teses, fazendo seus argumentos soarem constantemente inconcretos e defasados. A ideia era óbvia, dizer que espiar o passado é uma forma de se precaver no futuro, mas ao mesmo tempo seu roteiro deixa claro que não há futuro suficientemente agradável para ninguém. Como refletor do cotidiano, A Lei da Noite faz sentido em mostrar que nos resumimos perseguir McGuffins que resultam em nada, mas como narrativa isso pode trazer exigências as espectadoras que não serão correspondidas. A ideia central é que a vida é aleatória e cobra preços que não esperamos. Mas isso deixou o filme um tantinho aleatório também.

Texto de autoria de Marcos Paulo Oliveira.