Cinema

Crítica | Little Joe

Compartilhar

Ficção cientifica de premissa distópica e com claras influências do sub gênero literário New Weird, Little Joe apresenta a vida e rotina de Alice Woodard (Emily Beecham), uma mulher independente, bem resolvida, que tem um bom equilíbrio entre vida profissional e pessoal e que está em vias de ser premiada pela criação botânica de uma estranha planta, que vem a ter o mesmo nome que o filme. O longa de Jessica Hauser tem uma caracterização diferenciada, que reúne elementos de filmes de suspense e horror cientifico, um visual deslumbrante no que toca a questão botânica e um desenrolar lento e gradual de sua estranha trama.

Alice vive com Joe (Kit Connor), um filho atento e que tem com ela uma relação de tanta intimidade que faz o menino desejar que ela  arranje um par, mirando por sua vez Chris (Ben Wishaw) o colega de engenharia de sua mãe. A fim de conectar personagem com público, se expõe que ele tem problemas com o pai, demonstrando traços fortes da personalidade do rapaz, que prefere não ir para o interior com seu parente,  ficando quase sempre no mesmo lugar, mesmo que fique sozinho durante a preparação da feira que Little Joe concorrerá.

O que mais causa estranheza de fato é o cenário das instalações da corporação onde Alice e Chris prestam serviço. O ambiente de trabalho é saudável aparentemente, mas ânsia para que o experimento dê certo torna os doutores e engenheiros em seres tão insensíveis e alienados que parecem ser robôs automatizados, isso até antes de terem contato com o pólen da planta, que de acordo com os testes,  traz leves mudanças comportamentais em quem tem contato com ela. É como se alienação e insensibilidade estivesse só encubada, a espera de ser despertada por um elemento externo qualquer, que finalmente chega.

Hausner utiliza muito bem o som, que normalmente, dá a nota de urgência e apreensão aos que suspeitam que algo está (muito) errado, e isso ocorre desde o início do longa. A trilha sonora  faz prevalecer sons graves, que variam entre tambores e sintetizadores, que pontuam não só a questão pioneirista em matéria laboratorial, mas também na aproximação do perigo, que vai crescendo ao longo do desenrolar da historia.

É incrível como os sentimentos e sensações são todos pervertidos, desde a cumplicidade entre mãe e filho, até a confiança entre colegas de trabalho. Quase todos os encontros são constrangedores, inebriantes e irritantes, emulando de certa forma os efeitos do pólen de Little Joe, assim como toda a atmosfera de estranheza. O terror da obra reside na paranoia, no suspense e na super valorização da conformidade e tudo é justificado, pela lisergia ou pela loucura resiliente e de alto engano, com um conformismo por vias químicas, que resulta em atividades mecânicas, artificiais e incapaz de agrupar mentalmente a maior parte das nuances. Os momentos finais guardam algumas surpresas, cuja revelação certamente atrapalharia o leitor que por ventura não tenha visto o filme ainda. O que se pode falar é que o caráter agradável e passivo causam incomodo, principalmente por conta do final que abre possibilidade para algo ainda maior acometer a humanidade, fato que poderia até resultar em uma versão de pós apocalipse mais moderno. A apreciação de Little Joe é grande muito por conta das discussões filosóficas que ele suscita, além abrir possibilidades nada otimistas de vida e de futuro  dos homens.

Facebook – Página e Grupo | TwitterInstagram | Spotify.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
Veja mais posts do Filipe
Compartilhar