Crítica | Logan

A masculinidade tóxica é aquela que estabelece critérios para traçar o que é o ser masculino, montando cercas e delimitando emoções e ensinando a nos comunicarmos através da violência, legitimando-a na forma de um comportamento destruidor de si e daqueles ao seu redor. Essa masculinidade ainda nos entrega a nossa outrofobia, que é a aversão a tudo aquilo que não é o nosso EU.

Lançado em 1963, no auge da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, X-Men é comumente associado à causa racial, devido o preconceito que sofriam ao serem segregados ao serem fisicamente “diferentes”, e às causas LGBT com suas intersecções, onde as referências são várias, como por exemplo, que a descoberta dos poderes mutantes ocorre geralmente na puberdade, além de diversas cenas onde filhos contam aos pais de maneira constrangida sua situação de mutante. Seus grandes líderes, Charles Xavier e Magneto são inspirações diretas de Martin Luther king Jr e Malcolm X. Sendo assim é sobre isso que se trata X-Men, sobre um tipo de poder renegando à tantos. O poder de ser aquilo e aquele que se é.

E assim é Logan, filme que encerra a trajetória de 17 anos de Hugh Jackman à frente da franquia que iniciou o cinema de super heróis e suas principais temáticas. Uma Sci-Fi quase passada em um mundo sem data, sem futuro, mas com passado. Passado em 2029, após os eventos de Dias de um Futuro Esquecido e sem esquecer que houve todo um passado (Apesar da linha do tempo do universo X-Men nos cinemas, que não agrada muito quem se importa com isso), Logan usa os sentimentos nutridos por aqueles personagens para lhes dar profundidade e relevância. É desta forma que se torna chocante ver aquele que outrora foi Wolverine cansado e abatido pela dor de ser o que é. Envenenado por si mesmo. Por isso o choro fácil na primeira cena de interação entre Logan e seu mentor, Charles Xavier, a mente mais poderosa do mundo. Por isso e por conta da atuação de Patrick Stewart, que se apossou do personagem com uma entrega e paixão a qual só é possível agradecer. Agradecer pelas lágrimas e afeição provocadas, pois é raro ter esses sentimentos tão generosos dentro de uma sala de cinema que esteja projetando um filme dentro da temática heroica.

Para amplificar essa relação, surge a X-23-Laura, a nova Arma-X, no papel de uma criança de olhos grandes e curiosos. Olhos de quem nunca viu o mundo, mas que o admira. Sua aparição e a presença de Charles Xavier foram Logan à deixar de atacar, mas cuidar. Não cuidar de maneira paternalista, mas tal qual uma leoa. “As garras a mais têm relação com o gênero dela. Leoas precisam caçar, mas também precisam defender” diz Xavier explicando sobre a biologia de Laura. Desta forma Logan se obriga a ser uma leoa e proteger, zelar pela vida e harmonia na medida de suas incapacidades emocionais.

“Para que os brutos também possam amar”

Charles assiste à uma cena de Os Brutos Também Amam, sobre a história de um pistoleiro espezinhado pelo seu passado, e que entende a violência como um caminho sem volta. Ela te persegue, seja a violência sofrida ou a violência gerada, sendo que nas duas situações o potencial transformador é o de piora do ser humano.

Enquanto historicamente as mulheres e leoas se puseram responsáveis pela vida, os homens de puseram responsáveis pela morte e pela dor. Nas religiões matriarcais a vida está acima das ideias de maldade. Nós homens somos responsáveis por não compreender a vida, numa estratégia paternalista que nos confunde, baseada na glamourização violência e da crucificação, mas que por ser assim, estabelece nossa incapacidade de lidar com sentimentos, de prover carinho, vida e mudanças. Essa incapacidade é aquela que provoca nossa inveja que tanto mata, tanto fere e tanto nos torna incapazes de compreender laços.

“O senhor da guerra não gosta de crianças”

É preciso pensar, é preciso se curar… Curar das marcas, se curar daquilo que te ensinaram a ser, se curar daquilo que te machuca. É preciso retirar tudo aquilo que te envenena e não permite que sejamos nós mesmos em nossa plenitude. Pessoas na plenitude de suas fraquezas e de sua humanidade, sendo aquilo que escolheram ser. Por que podemos escolher um caminho melhor.

Em determinado momento, porém, Logan diz para seu futuro: “Você não precisa ser aquilo que fizeram de você”. Não precisamos mesmo.

Com um final espetacular para uma história tão gigante, Logan banca a assinatura do personagem e do seu diretor, James Mangold (Johnny & June), com uma violência seca e pungente, com ossos quebrando e gerando em nós sensações de aflição e tormento. Aqui a violência não é um espetáculo para ser apreciado, mas para ser sentido e incômodo. A ideia é que não há beleza nessa violência, mas consequências sérias e muitas vezes irreversíveis. É desta forma que surge aquele que é provavelmente o melhor filme baseado em quadrinhos em muito tempo, indo na contramão da espetaculização e se encontrando com o que há de humano em todos esses personagens e suas histórias, pois histórias são acima de tudo sobre pessoas.

Texto de autoria de Marcos Paulo Oliveira.

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