[Crítica] Lola Contra o Mundo

Lola Contra o Mundo - poster

O apreço por contar uma trajetória cinematográfica por meio de imagens é mostrado no primeiro take de Daryl Wein em seu Lola Contra o Mundo. Caso quisesse expressar o mote de seu roteiro sem a narração da personagem-título, a mensagem já seria passada. Lola é interpretada pela nova queridinha do cinema independente norte-americano, Greta Gerwig, ainda antes de seu sucesso em Frances Ha, curiosamente interpretando uma menina alternativa, deslocada e levemente insana, mas com nuances completamente diferentes entre as personagens.

Apesar da cena da praia, que inicia a trama, mostrando a areia suja e com lixo, os momentos posteriores visam contradizer de maneira óbvia o conceito de que aquele mundo ruiu. Lola é surpreendida por seu até então namorado Luke (Joel Kinnaman), que entrega a ela uma aliança, o símbolo máximo de compromisso matrimonial, e como “toda” mulher, ela cede ao sonho com o seu parceiro. O chamado à aventura acontece com pouco mais de sete minutos, quando Luke cancela o pedido de casamento duas semanas antes da festa, fazendo Lola mergulhar em uma profunda depressão, tornando seu sofá e cobertas em objetos apetecedores.

A resistência ao sentimento depressivo permeia o seu entorno, começando com a visita de seus pais e conhecidos. Adentrar no mundo dos solteiros torna-se algo ameaçador e digno de anti-fantasias, imaginando péssimas transas no meio de um bar, sonhos estes provindos da frustração de estar novamente sozinha, depois de 12 anos de relação e beirando os 30.

A busca por uma fuga da condição forçada de solteira faz Lola se agarrar em qualquer possibilidade de companheirismo, mesmo em amigos de longa data. Mesmo diante disso não há qualquer possibilidade de sucesso nestas empreitadas. Cada um dos fracassos a faz retornar ao pensamento originário, de só conseguir sair da miséria existencial com o causador de seu recente estado depressivo. A câmera de Wein não se engana ao mostrar o apartamento dos seres logo após o orgasmo que pretensamente viria para redimir o casal. O que sobra é a solidão inexorável de uma vida que não tem mais condições de ser compartilhada.

As superações e não superações da relação fazem crescer uma enorme distância entre as partes, um abismo de proporções dantescas, exacerbado pela estética romântica do filme. A máscara de mentor é compartilhada por diversos personagens, cada um com seu momento mágico de sabedoria e vulgaridade moderada. Mesmo diante dessas figuras, Lola é obrigada a se autocriticar, e ver em si a profunda análise do fracasso e da própria culpa, cuja demora em ser praticada provocou um sem número de afastamentos.

A trajetória de Lola se finda de um modo condizente com a realidade agridoce do roteiro, e em seu microuniverso consegue ser absolutamente plausível, e até otimista. O intimismo da proposta fílmica ganha ares de maturidade totalitária, sem abrir mão da delicadeza sentimental e das mostras de apoio mútuo, inerentes à qualquer relação de confraternização saudável. Lola Contra o Mundo pode ser lido facilmente como uma jornada de autodescoberta, em que o principal inimigo e aliado é o próprio homem em plena existência.