Crítica | Los Silencios

Filme competidor da Quinzena da Crítica do Festival de Cannes, Los Silencios é uma produção entre Brasil, França e Colômbia. Quase toda falada em espanhol, o filme começa a partir de uma tragédia já ocorrida, subentendida e que é explorada em suas conseqüências aos poucos. No começo um barco corta o rio pela noite escura, carregando ali três pessoas, aparentemente, embora se só notem duas, que são Amparo (Marleyda Soto) e seu filho Fábio (Adolfo Savinvino), a terceira é Nuria (María Paula Tabares Peña), mas só se sabe seu real destino com o desenrolar da trama.

Beatriz Seigner mostra a família tentando viver após uma tragédia pessoal, sem recursos e como refugiados. Adão (Enrique Diaz), o pai da família pereceu em uma obra e Amparo aguarda a indenização por parte da empresa que o empregava. Quando Fabio é matriculado na escola, não há garantia de que ele poderá merendar lá, e a família está numa situação tão paupérrima que eles aceitam a ida do garoto para lá, ainda que tentem sempre que ele consiga fazer ao menos uma refeição na escola.

O filme tem uma formula um pouco parada e contemplativa e o fato de ser silencioso faz com que todo suspense seja maximizado. A espera pela chegada do dinheiro que ajudaria a família a viver só não causa mais espanto do que as aparições fantasmagóricas, além evidentemente da surpresa que só se nota da metade para o final, ao mostrar outras menções aos mortos.

As manifestações sobrenaturais são mostradas de forma tão sem alarde que soam naturais, não casam estranhamento algum, até porque o terror do filme mora exatamente na falta de de esperança e alento. Enquanto Amparo parece desolada e resignada, pensando se aceita ou uma consolação no lugar da indenização, com a seguradora oferecendo a ela uma quantia pequena perto do que ganharia se  achassem os corpos dos mortos, Fábio se torna um menino meio rebelde, que gosta de fumar e que tenta responder de forma agressiva ao mundo que tirou parte de sua família. Sua reação é natural, afinal o que acontece a ele e sua mãe é bastante revoltante, não só pelo acaso como pela ganância de empreiteira que se recusa a pagar o que devem a família.

Tal qual o recente Mormaço, há uma causa sobre desocupação, com uns compradores misteriosos que fazem ofertas ofensivas e  de preços baixos aos aldeões, bem semelhante a que fizeram com Amparo. Os que moram no lugar onde a família foram morar tem por hábito tentar se comunicar com os mortos, a fim de garantir uma boa passagem. O modo como os não vivos são mostrados é muito bonito, com as roupas deles brilhando, como em neon, como as luzes dos vagalumes e essa composição visual quase poética faz a fotografia de Sofia Oggioni Hatty.

O final, quando uma carta chega a personagem principal, finalmente se fecha um ciclo, onde tanto vivos quanto os que já foram finalmente terão paz. A denuncia a barganha e o desrespeito aos mortos, a memória deles e aos que ficam só não é maior que a ode a saudade que Seigner monta em seu Los Silencios, filme que tem uma força e uma carga sentimental que não permite ao espectador ficar incólume.

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