Crítica | Lucy

Lucy é um filme sobre uma mulher que consegue ativar de 50 a 100% de seu cérebro, para uma plateia que não consegue chegar a 5%. A ofensa com o espírito crítico e cultural do público, por boa parte dos produtores, gera contradição compatível no mundo pop a da cantora Beyoncé, cantando a plenos pulmões que a beleza fere e perverte, mesmo sendo a atual deusa da volúpia. As últimas – e primeiras – linhas resumem o que poderia ser tema de uma monografia sobre as manobras da indústria de cinema deste século; cada vez mais capital, cada vez menos arte. Uma crítica de três ou quatro blocos seria o bastante para expressar em breve estudo, a angústia de estar diante de boas intenções cuja realização é emergencial – nem a visão de Scarlett (cara de boneca séria) Johansson salva do umbral – onde todas as propostas junto ao pífio entretenimento do filme vêm a padecer ante o belo manto técnico de sempre, a esconder uma repulsiva cadeia de negações de todos os tipos, e contradições já comentadas.‏

Em Sob a Pele, aliás, também estrelado pela moça (que ocupa o posto com Zoe Saldana de atriz hit do momento), Scarlett vive com elegância e intensidade dramática impressionantes uma mulher igualmente sem emoções, no passado ou futuro, porém com tentadora profundidade na construção da personagem; tentação oriunda do mistério que sua atuação evoca, misteriosa como uma diva noir, cuja beleza é essencial e respeitada a favor da premissa, analítica ao criticar nosso inevitável mundinho de aparências. Na conduta dessa mesma realidade distorcida em filmes de ação/ficção científica, Luc Besson (O Quinto Elemento) em Lucy faz sentir abstinência de A Origem até ao maior opositor de Christopher Nolan, que por pior que ainda seja a muitos, é eficaz quanto a encontrar bom-senso, trama e narrativa coerentes entre suas teorias e ideias surreais.

Besson se torna especialista em antíteses do próprio projeto, um “pois sim-pois não” que dura uma hora e meia de reviravoltas que, pelo conjunto, beira o insuportável, à luz, ou melhor, à sombra de um roteiro lastimável, sem eira nem beira, uma espécie de jornada individual moderna de um herói, no caso, heroína. Um modelo que Kurosawa imortalizou no japonês Yojimbo, e que encontra na sua cópia americana feminina e ultrajante, em gênero, número e grau, um dos seus piores exponentes a partir do que restou de vergonha e originalidade semi-extintas numa Hollywood que prefere estuprar seus mitos a arriscar novas lendas, visando revitalização e uma melhor reputação, impossíveis neste derradeiro cenário, sendo Lucy outra colher de terra, dessas que são produzidas em escala, contra o que já foi feito e aquilo que poderá florescer.

Contudo é possível listar uma overdose de filmes, mangás e filosofias, de primeiro a quinto escalão, que o filme de Besson se apoia para existir, ao longo da projeção, desde sua sonoplastia baseada nos efeitos sonoros modernos de 007 – Skyfall, Salt, A Origem e Sem Limites, sendo que do último furta ritmo e parte da frágil consistência, até  quando a protagonista, aparece na tela, sem qualquer tratamento de introdução, feito Toshirô Mifune no clássico samurai de ação. Ela é raptada, presa e se torna fera desgarrada logo em seguida, como em um reflexo de Oldboy. Besson se baseia em Sergio Leone e uma dízima de outras fontes de inspiração, mais abusadas e desmistificadas em seus valores que são relembradas em caráter de homenagem, como Quentin Tarantino, que se consagra hoje como melhor exemplo vivo disso, através de seus desvios de linguagem na forma de Cinema pessoal e peculiar.

Resta a prova que a conta não fecha em filmes como esse. A comida perde o sabor quando requentada mil vezes, exceto, é claro, se o paladar que a degusta nunca a tenha provado antes. Coisa rara, mais que rara, em tempos nos quais Lucy sequer merece duas estrelas em seu céu de diamantes.