Cinema

[Crítica] Mãe Só Há Uma

Compartilhar

Mãe Só Há UMa

Após trazer um filme interessante e inclusivo, que tinha discussão presente em Que Horas Ela Volta?, a diretora Anna Muylaert volta sua carga dramática novamente para a duplicidade e para mensagens mais abertas, como antes trabalhado em Durval Discos. O título americano de Mãe Só Há Uma talvez faça mais justiça ao plot escolhido pela diretora – Don't Call Me Son ou Não me Chame de Filho – já que até o título em português é um mcguffin, o que não é necessariamente um demérito, afinal tal aspecto acrescenta muito charme ao longa.

A história narra a vida de Pierre (Naomi Nero), um adolescente no alvorecer de sua sexualidade, que passa seus dias entre as atividades comuns a um menino na puberdade, estudando, tocando em um banda de rock e descobrindo sua libido, bem como sua identidade de gênero. Em meio à construção do caráter enquanto adulto, e sem ligar para qualquer tentativa de bullying e de cerceamento de suas liberdades, o menino se vê envolto em uma trama de rapto, quando descobre que Aracy (Daniela Nefussi) havia sequestrado-o de sua família original, situação semelhante ao famoso Caso Pedrinho, que chocou a opinião pública, em 2002.

Mãe Só Há Uma consegue se equilibrar entre dois adjetivos dissonantes, sendo tocante e aterrador simultaneamente: tocante por tratar de sentimentos profundos e caros de seu protagonista, muito bem enquadrado por Muylaert, e ainda mais inspirado na interpretação de Nero, que consegue resgatar nuances pouco comuns em tão pouco tempo de tela; e aterrador por mostrar a inclusão, tanto do rapaz em um mundo conservador e que certamente não o aceitaria em condições ditas normais, quanto de sua família nova, um ente que sempre foi querido, mas jamais conhecido. O choque de realidades se assemelha à colisão de dois mundos totalmente distinto, que levariam eras para se adequarem um ao outro, o que não impediria a relação forçosa entre as partes.

Além da direção primorosa, que busca, através de planos tão longínquos quanto aproximados, resgatar toda a confusão sentimental ocorrida dentro da identidade de Pierre com a inclusão de um novo nome civil - Felipe -, fator este que faz tudo se confundir ainda mais, há um cuidado extremo do roteiro em não demonizar parte alguma. A nova família, governada por Matheus (Matheus Nachtergaele), Gloria (também vivida por Nefussi) e seu irmão Joca (Daniel Botelho), encontra no ansioso retorno do filho pródigo uma gama de emoções completamente distintas para cada um, incluindo afronta, rejeição pura e empatia, com cada uma dessas sensações trabalhadas muito profundamente e em tempo recorde, mesmo com a curtíssima duração do filme, de apenas 82 minutos.

As reações dos personagens são plenamente cabíveis, ainda mais no mundo contemporâneo, onde há o embate do grito por representatividade, de quem sempre foi posto à força dentro do armário, contra a onda de conservadorismo vigente e crescente inclusive na política. A agressividade de Matheus não é dada como certa por parte do julgamento da câmera, mas é naturalizada, uma vez que há muitas pessoas que pensam e vivem como este personagem, assim como é plenamente justificável a rebeldia causal do menino em questão, que não perde somente sua figura materna primordial, mas também sua irmã, retirada de seus braços e de suas vidas para talvez nunca mais reencontrar seu fraterno.

Levando-se em conta o tema proposto, Mãe Só Há Uma consegue evocar uma construção de identidade bastante sólida, com um personagem de idade breve, que ainda está buscando seu ethos, mas que ainda assim é muito forte em suas decisões e seguro em relação às manifestações de quaisquer de suas animosidades. O personagem mostra um instinto de sobrevivência enorme ao sobrepujar a crise em que vive, crescendo a despeito dos reclames daqueles que deveriam e poderiam ser seus mentores. Pierre se mostra um rapaz em constante evolução, mas que não muda nem suas raízes, nem as companhias habituais, mudando de habitação mas sempre ligado à mesma tribo. O desfecho ainda conta com uma cena singela e acalentadora que fecha com primazia todo o drama em volta da nostalgia e saudade que o menino sente, colocando-o merecidamente na posição de mentor, e não mais como aluno.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
Veja mais posts do Filipe
Compartilhar