[Crítica] Mãe!

Terror psicológico de proporções dantescas, Mãe é o sétimo longa metragem do diretor Darren Aronofsky. O filme protagonizado por Jennifer Lawrence mostra uma mulher reclusa, que acompanha seu marido, um escritor e poeta vivido por Javier Bardem. Seus dias são preenchidos por uma rotina bucólica, calma e isolada, em uma casa que é levantada basicamente por seus esforços, para tornar ali o lugar perfeito para que seu esposo encontre inspiração e tranquilidade em seu trabalho.

O silencio e a solidão do casal são interrompidos com a chegada de visitantes, começando pelo personagem de Ed Harris, um homem misterioso que rapidamente adentra na intimidade dos dois, servindo de certa forma como catarse para algo a mais – ou mesmo como válvula de escape para que o personagem de Bardem enfim consiga reaver sua inspiração. Nesse meio tempo, uma série de eventos entrópicos ocorrem, pondo em cheque a confiança da protagonista em seu marido.

O background de Aronofsky é repleto de signos. A inconveniência de alguns personagens são mostradas para contar algo, estabelecendo um sentimento universal. O infortúnio da personagem título não é à toa, ao contrário, todo o seu entorno parece louco. O texto em alguns pontos é uma ode ao incômodo, representando a repulsa ao convívio através da clara demonstração de desconforto da protagonista em ver sua casa habitada por completos estranhos.

Essa repulsa a multidões e ao convívio é demonstrada através dos olhos da protagonista. O que não se sabe é se o isolamento que a pretensa família tem é causada pela vontade dela ou de seu companheiro, que claramente parece ter escolhido o exílio para conseguir conversar com seus próprios demônios em paz, encontrando assim o lirismo necessário para dar vazão ao seu próprio trabalho.

As especulações em torno do filme, antes dele ser visto, eram ligadas a crença de que seria ele o Bebê de Rosemary da contemporaneidade, e tais prerrogativas não poderiam ser mais infundadas. Todo o cerne de Mãe contradiz e muito o ideal por trás do clássico de Roman Polanski, inclusive invertendo a figura de culto. Neste momento, não são os adoradores de Satanás os inimigos, mas sim aqueles que seguem cegamente um ideal repleto de frases bonitas e soluções fáceis. O declínio da humanidade é mostrado através do exploração comum ao culto de tolos, normalmente exemplificado em figuras religiosas, autores literários, coachs e afins.

O longa é absolutamente angustiante, apesar de um certo exagero, em especial, nos momentos finais. O tom da crítica se perde em meio a uma histeria bastante inconveniente, mas até isso se justifica. O problema se dá em seu fechamento de ciclo, que já se desenhava antes mesmo do desfecho realmente ocorrer. Para um filme que pretende tanta profundidade, há um problema bastante grave na forma que a história se desenvolve. Aronosfky poderia ter acertado mais, mas seu saldo final é bastante positivo, principalmente por conta da entrega de Lawrence e a criação de tensão que a fotografia, figurino e cenários proporcionam, fazendo desse um conto melancólico a respeito da dependência emocional e da exploração dos sentimentos alheios.

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