[Crítica] Magia Ao Luar

Após uma longa e prolífica carreira, é absolutamente impossível desassociar a audácia e ineditismo ao ideal de um cineasta. Experimentar novos espaços e desafios diferentes do habitual é algo sempre cobrado de artistas que executam suas funções há muito tempo. A filmografia de Woody Allen é um bom exemplo a ser analisado, uma vez que o diretor já vivenciou mil infâmias fora do escopo artístico e  tantas outras declarações de que seu trabalho deveria ser cessado. Todos esses comentários são de origem e consequências discutíveis, e também foram baseadas na suposta aposentadoria  do diretor por tempo de ofício. Magia ao Luar chega sem muita pompa após um premiadíssimo filme. Não que o sucesso faça qualquer diferença para o seu realizador, que gosta de manter a discrição a reconhecer toda e qualquer canonização de suas obras.

A história de Magic in Moonlight envolve o misterioso mundo do ilusionismo, focado em Stanley (Colin Firth), cujo sobrenome de difícil pronúncia muda de acordo com a ocasião e ao seu bel prazer. Stanley é um britânico caucasiano que interpreta um mago chinês conhecido como Wei Ling Soo, que no palco é carismático ao extremo, mas que tem em sua contra-parte um sujeito pretensioso, inteligente, genial em sua área e asqueroso no trato com outros seres humanos. Em suma, um misantropo.

O começo do filme é típico, com uma música instrumental que remete ao ano de 1928, quando Wei Ling faz um show em Berlim, e onde os préstimos de beleza surreal do personagem principal são exibidos. Após a apresentação, Howard Burkan (Simon McBurney), um velho amigo de Stanley, também mágico, vai cumprimentá-lo. Sua compleição e comportamento são o extremo inverso de Stanley, pois Howard é inseguro, tem as costas arqueadas demonstrando ser uma presa fácil se comparado com o mito que está a sua frente. Woody Allen continua com a mania de se inserir nas tramas, ainda que sua presença esteja diluída em vários personagens, com Stanley fazendo o diretor idealizado pelo público e por parte dos críticos, enquanto Howard simboliza a sua visão sobre si mesmo: um velho americano careca, que apesar de ter muito talento, não se destaca mais do que o necessário, e ainda guarda uma série de hesitações provenientes de uma auto-estima bastante baixa.

O encontro entre os dois é basicamente para bajulação por parte de Howard e para a realização de um pedido, pois o experiente ilusionista diz ao seu amigo famoso que ele presenciou uma sumidade, uma moça que parece ter poderes mediúnicos e que, mesmo com todo o conhecimento do mágico, ele não conseguiu provar que ela era uma fraude. Após a recusa em primeiro plano, Stanley resolve assumir o pedido do amigo, e vai ao encontro da suposta charlatã.

Como era de se esperar, o protagonista exala um sarcasmo extremo ao chegar no local onde deveria começar sua investigação. Sua alcunha falsa é uma representação do desprazer dele em exercer este fútil esforço para desmascarar outrem, e sua misantropia consegue ser percebida por todos ao seu redor, que se mostram imediatamente descontentes com tal desprezo. No entanto, ele prossegue naquela empreitada.

O fino semblante da suposta advinha também era esperado. Sophie é interpretada por Emma Stone, que apesar de não ser uma figura de beleza tão destacada quanto outras musas de Allen, ainda assim guarda uma aparência de docilidade extrema, condizente com seus poucos anos de idade e com seu jeito meigo de tratar seus clientes, o completo inverso do ilusionista disfarçado. No entanto, já no primeiro contato com o veterano, a moça se afeiçoa pela figura dele.

Stanley é definido por Sophie como um pessimista que, como Freud, não gosta de respostas fáceis. Chega a ser neurótico e deveras derrotista. Suas crescentes piadas escondem uma enorme carência: uma vontade de ser reconhecido por seus préstimos, além do desejo de receber elogios da imprensa e de especialistas. Entre todas as revelações, a questão amorosa é a que verdadeiramente o incomoda, uma vez que ele se mostra insatisfeito sempre que se refere ao seu par. Ainda que sua fala pareça elogiosa, suas feições contradizem o discurso.

O ceticismo de Stanley segue firme, apesar de esbarrar nos talentos dedutivos da jovem. Sua deprimente existência – e a de toda humanidade – faz  com que ele não creia nem um pouco em um mundo metafísico, onde ectoplasmas definem a subsistência das criaturas racionais. No decorrer da trama, ele fica irritadiço ao perceber cada vez mais os poderes dela. O intuito do cineasta é dar um tapa na face dos céticos pretensiosos que se consideram superiores somente por não terem fé em nada.

Os olhos azuis da dupla contemplam o céu também azul. A noite torna-se uma mostra muito mais positiva da observação do cosmo – e consequentemente da vida – do que era mostrado até então na película, muito disso graças às falas dos caracteres flagrados pela câmera. O intuito um tanto piegas desse ato é afirmar que, afinal, a vida não é tão previsível, nem os sentimentos podem ser enquadrados em um escopo tão matemático e exato quanto a pretensão humana às vezes insiste em definir.

Aos poucos, Stanley cede, e a partir disso, todo o seu ideário muda. A desconstrução do niilista, começa apresentando novamente a fé no Divino em virtude do que se vê. Isso chega até a surpreender o espectador, mas a surpresa dura poucos instantes, pois não demora para que o britânico intua novamente que Sophie é uma fraude. A misantropia o fez enxergar a verdade por trás da traição. Novamente, seus “maus sentimentos” o salvam, como sempre fizeram. O otimismo continua a ser visto por ele como uma ilusão e perda de tempo. Um tempo inútil, empregado para o nada, muito semelhante ao modo que muitos misantropos, como Stanley, veem o amor e sentimentos semelhantes.

No entanto nota-se uma evolução no comportamento do protagonista. Apesar de sua arrogância e rejeição a assumir suas falhas, ele reconhece ser caústico e desagradável. Sua análise parte de um viés realista, que o faz encarar o universo da mesma maneira com que enxerga que não precisava ser tão amargo ou azedo no tratamento daqueles que vivem em seu círculo. A superioridade do amor sobre os argumentos pomposos, e uma visão poetizada desse sentir não garantem que a emoção seja retribuída. Somente as relação afetuosas pragmáticas e insossas funcionam do modo apolíneo com que Stanley conduz suas relações.

Talvez a única advertência taxativa que se pode fazer à condução do roteiro de Woody Allen seja a mudança de postura do protagonista. Não que não seja factível ou plausível, porque aliás, é carregada de verossimilhança, mas a expectativa era de que o personagem permanecesse em sua posição arrogante, acima das vicissitudes alheias. A opção por focar na crítica é um artifício inteligente, mas não é incomum para o diretor. Mais comum ainda é a atenção às facetas humanas que na maioria das vezes são ignoradas, como o diretor faz ao abordar a ostentação depressiva em Blue Jasmine e o enorme vazio existencial dos céticos em  Magia ao Luar. Quanto a esse aspecto, o filme é perfeito em seu molde.